condicional — compraria, faria, doaria: the best dinner-table question · ~860 words · level B1
A pergunta apareceu no meio do jantar, como sempre acontece: — O que você faria se ganhasse dez milhões na loteria? Rafael respondeu primeiro, com a boca cheia de arroz: — Eu compraria um barco e daria a volta ao mundo. Ninguém levou a sério, porque Rafael é apressado com tudo, até com os sonhos dele. Marina começou a fazer as contas num guardanapo, muito séria, com a cara de quem já tinha o dinheiro na mesa.
— Você enjoaria no terceiro dia! — riu Marina. — Eu, no seu lugar, compraria uma casa na montanha. — Uma casa na montanha seria solitária demais — disse Sofia. — Eu preferiria uma chácara, a uma hora daqui, com um portão azul e uma mangueira velha no quintal. — Casa a gente compra com o coração; terreno a gente compra com a cabeça — disse Pedro. — Eu compraria um terreno perto da rodovia nova e esperaria dez anos sem fazer nada. — Dez anos olhando para o mato? É tudo o que eu precisava saber sobre você — riu Marina. — Eu continuaria trabalhando, mas só três dias por semana. E doaria uma parte, claro. — Doaria para quem? Caridade também exige uma escolha — disse Pedro. — Para um abrigo de animais, talvez. Ou para a escola do bairro, que não tem nem ventilador.
— Dez milhões parecem muito, mas o imposto come uma parte logo no começo — avisou Pedro. — E o resto? Você deixaria tudo na poupança? — quis saber Rafael. — Poupança não rende nada. Eu faria um investimento sensato e viveria dos juros. — Você investiria em quê, exatamente? — perguntou Sofia, desconfiada. — Em nada arriscado. Eu sou discreto até nos meus sonhos. — Isso é a coisa mais triste que eu já ouvi neste jantar — disse Marina.
— O problema não é o dinheiro — continuou Marina. — O problema é a inveja dos outros. — Verdade. Todo mundo apareceria com um palpite sobre a sua vida. — E não é só a família. Os conhecidos são piores: gente que te viu duas vezes na vida ligaria no mesmo dia. — Um conhecido do trabalho me chamou de amigo no dia em que eu ganhei uma cesta de Natal — contou Pedro. — E com uma dívida antiga para você pagar. — Eu emprestaria, sim, mas só uma vez para cada um — disse Sofia. — E ninguém devolveria nada — riu Pedro. — Nunca devolvem. — Aí você vira mão de vaca e perde os amigos do mesmo jeito.
— Quanto você doaria, sinceramente? — perguntou Pedro, desconfiado. — Uns dez por cento. Um milhão ajudaria muita gente. — Dez por cento?! Você prometeu a metade faz cinco minutos! — protestou Rafael. — Eu prometi numa hipótese. Numa hipótese eu sou muito generosa. — E você, Pedro? O que você faria? Pedro pensou muito antes de responder.
— Eu gostaria de dizer algo bonito… mas eu pagaria minhas dívidas e dormiria uma semana inteira. Todo mundo riu, porque era a resposta mais honesta da noite. — Se eu ganhasse de verdade — concluiu Pedro — acho que eu seria a mesma pessoa. — Claro… a mesma pessoa, numa rede, numa praia, sem despertador — disse Marina. — A mesma pessoa, mas descansada. Isso já seria um homem diferente.
Foi então que Sofia contou o caso da tia Neusa. A tia recebeu uma herança pequena de um primo distante: oitenta mil reais que caíram do céu numa quinta-feira. A família inteira deu conselho, e ela ignorou todos, um por um, com muita educação. — Ela gastou tudo do dia para a noite? — perguntou Rafael, animado. — Pelo contrário. Ela guardou cada centavo e não desperdiçou nada. — E aí? — E aí ela ficou com medo de gastar e até hoje vive apertada, com o dinheiro parado no banco.
— Isso é o pior desperdício de todos — disse Marina. — Pior do que a ganância? — perguntou Rafael. — Pior. O ganancioso pelo menos vive alguma coisa, mesmo que seja errada. — A generosidade dá muito mais trabalho do que parece — disse Sofia. — É preciso escolher quem vai receber, e alguém sempre fica de fora e nunca esquece. — Por isso eu seria generoso em silêncio — concluiu Pedro.
No fim do jantar, Rafael tirou um bilhete amassado do bolso da calça. — Comprei hoje na padaria. Uma aposta só, cinco reais. — Você aposta toda semana? — perguntou Sofia. — Todo sábado. É a minha aposentadoria — respondeu ele, sem nenhuma vergonha. Marina olhou para o teto com a paciência de quem já ouviu isso mil vezes. — Fortuna nenhuma vai cair do céu, Rafael.
— Talvez não. Mas por cinco reais eu compro uma semana inteira de conversa como esta. Ninguém soube o que responder, e o café chegou na hora certa. No domingo, Rafael ligou para todo mundo antes das sete da manhã, gritando. Ele acertou quatro números: cento e vinte reais. Depois da pizza da noite seguinte, sobrou exatamente um real e cinquenta. — Viu? — disse ele, guardando a moeda. — Já começou.
The words in this story are taught in Lição 23
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