the imperfeito — grandpa remembers how life used to be · ~694 words · level A2
Meu avô sempre conta histórias da infância dele. Quando ele era criança, ele morava numa cidade pequena no interior. A casa era simples, mas a família era grande e feliz. Eles não tinham televisão nem celular — e ninguém sentia falta. Ele costumava dizer que o mundo dele terminava no fim da rua. — Era outro mundo — ele fala, e eu já sei que vem história boa.
Todo dia, meu avô acordava às cinco da manhã. Ele tomava café com pão e ia para a escola a pé. A escola era pequena: uma sala, uma professora e vinte crianças. Na parede tinha um quadro preto, e a professora escrevia tudo com giz. Todo santo dia ele precisava decorar um poema inteiro. Na hora do recreio, ele comia a merenda que a mãe dele mandava: pão com banana. Depois ele corria descalço no pátio de terra e voltava para casa empoeirado. A escola ficava longe, mas ele gostava do caminho. No caminho, ele brincava com os amigos e via os animais.
À tarde, as crianças brincavam na rua até a noite. Elas jogavam bola, subiam nas árvores e nadavam no rio. Meu avô e os amigos passavam horas com uma bola de gude na mão. Quando o vento estava bom, eles soltavam pipa atrás da igreja. A irmã dele raramente saía de casa sem a boneca de pano. Ninguém tinha medo, porque a cidade era muito tranquila. A mãe dele fazia bolo todo domingo, e a casa estava sempre cheia de gente.
Mas uma tarde, meu avô quebrou a janela do armazém com uma pedra. O dono do armazém contou tudo para o meu bisavô na mesma hora. Meu avô teve que ficar de castigo duas semanas, sem rua e sem amigos. — Foi a travessura mais cara da minha vida — ele diz, rindo. Ele era um menino travesso, mas nunca era mau. Naquela época, todo mundo conhecia todo mundo, e nada ficava escondido. — A cidade inteira sabia da minha vida — ele reclama, até hoje.
No domingo, a família ia de carroça até o sítio dos avós dele. O cavalo era velho e teimoso, e a viagem levava duas horas. Lá tinha uma horta grande, e meu avô colhia tomate e cebola de manhã cedo. Antes do café, ele ainda precisava buscar água no poço. A bisavó dele criava galinhas atrás da casa e conhecia cada uma pelo nome. O almoço saía do fogão a lenha, e a cozinha ficava quente demais. À noite, sem luz elétrica, alguém acendia o lampião da sala.
A avó dele costurava a roupa da família inteira. A máquina dela era antiga e fazia um barulho terrível. Mas ninguém reclamava, porque toda a roupa nova saía dali. Meu avô guardava as coisas importantes dentro de um baú de madeira. Naquele baú tinha fotos, cartas e um anzol de pescar. Ele e o pai pescavam no rio nas manhãs de sábado, quase sem falar. — O peixe some quando a gente fala — meu avô explica, muito sério.
— Naquele tempo, tudo era mais simples — diz meu avô. — Nós não tínhamos muitas coisas, mas éramos felizes. Eu sempre pergunto: — Vô, você não sentia falta de nada? — Não! Eu tinha o rio, os amigos e o bolo da minha mãe. O que mais uma criança precisa? — E dinheiro? — perguntei uma vez. — Dinheiro a gente via muito pouco — ele respondeu, sem drama. — Mas a mesa nunca ficava vazia, e isso bastava.
Meu avô cresceu, arrumou trabalho na cidade grande e casou com a minha avó. Hoje ele mora aqui com a gente, num apartamento no sexto andar. Ele não sobe mais nas árvores, claro. Mas todo domingo ele faz o bolo da mãe dele. Eu sento na cozinha só para fazer companhia a ele. Na semana passada, ele abriu o baú velho e tirou de lá uma bola de gude azul. — Essa aí é sua agora — ele falou. — Um dia você vai contar a história dela. E quando ele fala da infância, os olhos dele ficam felizes — como os olhos daquele menino que brincava na rua.
The words in this story are taught in Lição 9
Every story in Rumo uses only words and grammar from its lesson and the ones before it, so you can read it after Lição 9 (level A2).
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