se eu tivesse sabido, teria pagado — hindsight, told as only Rio can · ~768 words · level B2
O primeiro mês de Rafael no Rio começou com um anúncio perfeito demais. Apartamento mobiliado, vista para o mar, preço de sonho. Na foto da planta, o quarto era amplo e arejado, e o texto garantia oitenta metros quadrados de felicidade. Se ele tivesse parado para pensar, teria desconfiado na hora. Mas quem é que consegue parar e pensar na frente de uma vista para o mar?
O “proprietário” era simpático demais pelo telefone. — Para garantir o apartamento, é só transferir a caução hoje — disse ele. Rafael já estava com o banco aberto no celular. Não pediu a escritura, não pediu o nome do corretor, não pediu nem o número do prédio. Mal sabia ele que estava a um clique do maior erro do ano, e que quase o levaram na conversa como se ele fosse turista de primeira viagem.
Foi quando o porteiro do prédio o viu na porta, olhando para cima. — Posso ajudar, meu amigo? — Vou alugar o 302! Só falta transferir a caução. O porteiro balançou a cabeça devagar, como quem já tinha visto aquele filme. — O 302 não está para alugar. Esse anúncio é falso. Você seria a terceira vítima este mês. — Quem paga fica no prejuízo e liga aqui até hoje perguntando pelo dinheiro, que foi por água abaixo em três minutos.
Rafael sentou na calçada, entre o alívio e a vergonha. Se o porteiro não tivesse falado nada, ele teria perdido a caução inteira. Ele deveria ter procurado uma imobiliária desde o começo — e foi o que fez. Uma semana depois, assinou contrato de verdade: sem vista para o mar, com uma infiltração pequena e com o melhor síndico do Rio. Leu a letra miúda duas vezes, cláusula por cláusula, e mesmo assim não entendeu metade. Todo mês chegava a cobrança do condomínio; todo ano chegava o reajuste, pontual como o Natal.
Dois anos depois, Rafael já falava de imóvel como quem fala de futebol. Cansou de alugar: queria financiar, pagar parcela, ter o próprio nome na escritura. No banco, o gerente explicou o financiamento, a hipoteca e a taxa de juros com o entusiasmo de quem vende sorvete. Trinta anos de prestação. Rafael fez as contas no guardanapo e riu para não lamentar. Ainda assim, sonhava em quitar tudo antes dos sessenta e ligou para o corretor na manhã seguinte.
O corretor era um homem de camisa social, planilha no tablet e ar-condicionado sempre no máximo. Levou Rafael a seis apartamentos, e o quinto era o certo. Sala ampla, cozinha impecável, uma janela que pegava o sol das cinco da tarde inteirinho. Na vistoria, o engenheiro não encontrou mofo, nem parede encardida, nem cheiro de cano velho. O laudo saiu limpo, o preço por metro quadrado estava abaixo da média do bairro, e o síndico era gente boa. — Fecha hoje — disse o corretor, sem drama. — Amanhã já era.
E Rafael hesitou. Quis barganhar mais dez mil, quis ver o imóvel outra vez, quis dormir e decidir no dia seguinte. Na hora de fechar negócio, recuou — com aquele medo antigo do golpe, o medo que uma vez o tinha protegido e agora o atrapalhava. No dia seguinte, o apartamento tinha dono. Um casal de São Paulo assinou tudo em quarenta minutos, sem pedir desconto, sem pedir nada. Se ele tivesse assinado naquela tarde, hoje estaria pagando a própria hipoteca em vez do aluguel de outra pessoa.
Foi aí que Rafael conheceu o outro lado do arrependimento. O primeiro erro quase custou uma caução; o segundo custou um apartamento inteiro. “Se eu tivesse sabido que hesitar também é uma decisão, eu teria decidido”, pensou ele, tarde demais, como sempre. E ainda houve o susto final: o dono do prédio alugado vendeu tudo e falou em despejo em trinta dias, até que a advogada da imobiliária leu o contrato em voz alta e o assunto morreu ali. Meses depois, Rafael comprou outro apartamento: menor, sem vista, com um banheiro que ele teve que reformar no primeiro fim de semana. Aceitou meio sem acreditar, assinou com a mão tremendo, e hoje jura de pé junto que gosta mais desse.
Hoje, quando alguém pergunta como se aluga apartamento no Brasil, Rafael responde sem pensar: — Primeiro, você pergunta ao porteiro. Depois, você pergunta ao porteiro. E no final… pergunta ao porteiro. E quando perguntam como se compra, ele fica sério por um segundo. — Aí é outra coisa. Aí você não pergunta muito: você assina. Foi por pouco. Mas pelo menos ficou a lição — duas, na verdade, e a segunda saiu bem mais cara.
The words in this story are taught in Lição 31
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