é inegável que, ademais, uma vez que, por conseguinte — the connectives of the argumentative essay, tested out loud at a condominium meeting · ~1008 words · level B2
O aviso no elevador dizia: assembleia extraordinária, terça, oito da noite. O assunto era o lixo do prédio, sempre espalhado na calçada. O cenário se repetia toda terça: sacos rasgados, cachorro feliz, vizinho furioso. No âmbito do condomínio, aquilo já era assunto de elevador havia dois anos. Rafael tinha uma tese pronta e três noites de estudo atrás dela. Queria propor coleta seletiva e um armário simples na garagem. Achava que a problemática era simples e que ninguém tinha parado para pensar nela. — Não é prova escrita, viu? — avisou Marina. — São vinte vizinhos com sono.
Rafael pediu a palavra e sentiu a boca secar. — Em primeiro lugar, é inegável que o problema piorou este ano. — Uma vez que os sacos ficam abertos, o cheiro toma a rua inteira. — Tendo em vista o calor de janeiro, o quadro tende a se agravar. — Ademais, trata-se de saúde pública, e não apenas de estética. — É notório que ninguém aqui gosta de desviar de saco furado na calçada. — Diante disso, proponho separar o material reciclável aqui dentro. Falou quatro minutos, com embasamento, quase sem gaguejar.
Então seu Ivo levantou a mão, sem pressa nenhuma. — Meu filho, eu moro aqui há trinta e dois anos. — Isso aí não pega: o caminhão mistura tudo no fim. Ponderou, com a calma de quem tem tempo, que já tinham tentado aquilo em 2009. — Todo mundo se anima, e em três meses volta tudo ao que era: um retrocesso. Não trouxe dados, não citou fonte confiável, não comprovou nada. Trouxe senso comum, que ali pesava mais que qualquer evidência. A assembleia riu, concordou e adiou a votação.
Rafael subiu calado, chateado com a refutação que não soube fazer. — Ele venceu com uma conclusão precipitada — reclamou. — Não argumentou, só lembrou. — E lembrar convence — disse Marina. — Mas você tem um mês. Passou as semanas atrás de números: ligou para a cooperativa, falou com a prefeitura. No galpão, dona Cleide explicou a rotina de quem vive de separar material alheio. A precarização daquele trabalho não cabia em nenhum gráfico bonito. Rafael entendeu que a vulnerabilidade social daquelas famílias não era tema de redação: era terça-feira. A exclusão social começava na mesma calçada em que ele reclamava do cheiro. Nada perpetua um problema como a certeza confortável de que ele não tem solução. Na prefeitura, descobriu que havia verba pública parada para exatamente aquele tipo de projeto. Descobriu também que o poder público adora um pedido por escrito, com protocolo e carimbo. Entre a garagem do prédio e o galpão da cooperativa cabia um abismo social de dez quarteirões.
Enquanto isso, o grupo de mensagens do condomínio fervia. Alguém mandou um áudio dizendo que a coleta seletiva tinha acabado no país inteiro. A desinformação circulou mais rápido do que qualquer folheto da prefeitura. O áudio era de 2017, de outra cidade, e ninguém checou coisa alguma. — O algoritmo entrega o que a gente já quer ouvir — disse Marina, professora até no jantar. — Cada um mora dentro da bolha das redes e acha que aquilo ali é o prédio inteiro. Ela dava aula de letramento digital para adolescentes e via a defasagem todo dia. — E não é defasagem de idade — disse. — Seu Ivo confere a fonte; meu aluno de quinze não confere. Rafael respondeu no grupo com calma, sem ironia, e anexou o calendário oficial da coleta. Foi ali que entendeu que conscientização também é trabalho braçal, feito uma mensagem por vez.
Na terça seguinte, chegou com pastas impressas para cada morador. — Todavia, os dados indicam que a coleta de recicláveis passa aqui às quintas. — A legislação do município já obriga o condomínio a separar o material. — O volume do nosso lixo é crescente há três anos, ao passo que o número de moradores caiu. — Em contrapartida, o prédio da esquina já reduziu o volume pela metade. — Sobretudo, cada quilo a mais acarreta custo para todos nós na taxa mensal. — Visto que o custo é zero, é possível afirmar que perdemos pouco tentando. — Na medida em que a verba já existe, adiar não economiza nada.
O agravante, disse ele, era que metade daquilo nem era lixo. — A pergunta pertinente não é se funciona, e sim quem desce com o carrinho na quinta. — Nada aqui resolve o problema sozinho, mas separar o vidro já mitiga o risco de alguém cortar o pé. Três moradores confirmaram o horário do caminhão, o que corroborou a planilha dele. — Um aviso na portaria pode fomentar o hábito melhor do que qualquer discurso meu. Ressaltou a contradição: todos reclamavam do cheiro e ninguém mudava nada. — Adiar de novo é escolher o cheiro em detrimento de dez minutos de trabalho. — Por conseguinte, peço a votação hoje — concluiu, com a voz firme. A lacuna do contra-argumento do vizinho era simples: havia dois caminhões, em dias diferentes.
Seu Ivo leu a pasta inteira, de óculos, calado. Entretanto, na hora de votar, levantou a mão junto com os outros. Passou por uma diferença de dois votos, o que não é triunfo nenhum. Dessa forma, o armário chegou na semana seguinte, meio torto. Seu Ivo apareceu na garagem com uma furadeira e endireitou a prateleira sem pedir licença. — Se é para fazer, faz direito — resmungou, e ninguém discutiu com ele. Dona Rosa colou na parede um cartaz feito pelos netos, com desenho de garrafa e papel. Em dois meses, o volume caiu um terço, e ninguém mais falou do assunto no elevador.
— Ganhou pela evidência? — perguntou Marina, no elevador. — Ganhei porque a dona Rosa achou que eu falo bonito. — E porque o seu Ivo gosta de furadeira mais do que de assembleia — acrescentou ela. — Em suma — disse ela —, ganhou pelo senso comum. Rafael escreveu tudo aquilo à noite, em quatro parágrafos, como exercício. Marina leu, riu duas vezes e escreveu na margem: “tese boa, conclusão apressada”.
The words in this story are taught in Lição 38
Every story in Rumo uses only words and grammar from its lesson and the ones before it, so you can read it after Lição 38 (level B2).
Open Lição 38 → All 40 stories in the reader →