tenho trabalhado, acabei de, deixei de: two friends catch up · ~733 words · level B1
— Oi, sumido! Faz tempo que não te vejo! — gritou Rafael, do outro lado da rua. Pedro atravessou correndo e deu um abraço no amigo. — Acabei de voltar de viagem! Como você tem estado? Rafael apontou para uma mesa vazia na calçada, e os dois sentaram sem combinar nada. — Tenho trabalhado demais. Cada vez mais reuniões, cada vez menos vida. — A carga de trabalho dobrou desde que a empresa cresceu, e ninguém contratou ninguém. — É uma fase — disse Pedro. — Toda empresa passa por isso. — Uma fase de dois anos, então.
— Você tem dormido bem, pelo menos? — Pouco. Tenho insônia desde março, e não é culpa do café. — Deito às onze, penso na reunião das oito e não consigo pegar no sono. — Chego em casa esgotado, mas o cansaço não vira sono. Vira raiva. — Então desabafa, vai. Eu tenho a tarde inteira — disse Pedro, apoiando os cotovelos na mesa. E Rafael desabafou por dez minutos quase sem respirar. — Se eu pudesse, eu desaceleraria tudo. Trabalharia menos e viveria mais. — Ninguém desacelera por acidente — respondeu Pedro. — A gente decide desacelerar, e depois briga com a própria agenda.
— Mas tenho malhado de manhã, e isso tem ajudado com o estresse. — Academia mesmo? Você era o cara mais sedentário que eu conhecia. — Era. Agora faço trinta minutos de esteira e depois um pouco de musculação. — E funciona? — Engordei seis quilos no ano passado. Já emagreci quatro. — A balança deixou de ser minha inimiga, o que já é um progresso enorme. — Boa! Eu deixei de comer besteira e tenho comido muito melhor. — Nada de dieta maluca. Cortei refrigerante e passei a cozinhar em casa, só isso.
— Eu tenho visto suas fotos. Você está ótimo! — Tem mais uma novidade — disse Pedro, com orgulho. — Tenho feito um curso de fotografia. — Desde quando? — Desde março. Tenho aprendido muito, e continuo praticando todo fim de semana. — Retomei uma coisa que eu larguei aos dezoito anos, e foi como reencontrar um amigo antigo. — Que inveja boa! Eu não tenho tido tempo para nada. — Comecei a fazer terapia também. Do nada, numa terça-feira qualquer. — Sério? E ajuda? — Ajuda. Falar uma hora por semana sai mais barato que explodir no trabalho.
— Você soube do Vitor? Virou pai em janeiro. — Não acredito. O Vitor, que não sabia nem ferver água? — Esse mesmo. Hoje ele troca fralda no escuro e esquenta mamadeira às três da manhã. — Está irreconhecível: magro, feliz e com olheiras até o queixo. — Ele jura que a gente se acostuma com tudo, menos com o silêncio depois do choro. — A gente devia visitar ele. — Devia. Ele mandou foto do berço novo umas três vezes e eu nunca respondi.
— Já que estamos falando de bebê… — Pedro mexeu no copo sem olhar para o amigo. — A Bruna está grávida. Rafael levantou tão rápido que a cadeira caiu para trás. — Como assim? Desde quando? — A gravidez já está no quinto mês. Eu queria contar pessoalmente. — Por isso a viagem, o curso, a comida melhor? — Por isso tudo. Eu quero chegar em novembro com algum pique. — Você amadureceu, hein — riu Rafael. — Eu ainda estou amadurecendo. — Ninguém amadurece de uma vez. Acontece devagar, como tudo que presta.
— Então bora mudar isso. Sábado: café, praia e fotos? — Fechado! Faz meses que eu não tiro uma folga de verdade. — De uns tempos pra cá, meu sábado virou uma extensão da segunda-feira. — Pois é. A gente precisa colocar o papo em dia sem pressa e sem celular. — E, pra variar, sem falar de trabalho. — Prometo tentar. Cada reunião citada custa uma cerveja. — Então está decidido. Sábado, a rotina fica em casa.
E ficou. Foi o melhor sábado dos últimos tempos. Rafael acordou disposto pela primeira vez em meses e não olhou o celular antes das dez. Pedro levou a câmera e fotografou o amigo rindo com areia no cabelo. Na volta, mandou a foto para a Bruna com uma legenda curta: “Ele vai ser um tio insuportável”. Rafael respondeu na hora: “Vou mesmo. Já comprei um chapéu ridículo para o bebê”. Nenhum dos dois falou de reunião naquele dia. Quase.
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