tá ligado, mano, da hora, deu ruim — street slang and idioms on a rolê where nothing means what it says · ~955 words · level B2
Na sexta, Marina avisou que os amigos dela iam levar Rafael num rolê pela Vila Madalena. — Vai ser massa — disse ela. — A vibe é boa e o pessoal é gente fina. Rafael tinha passado a semana escrevendo e-mails cerimoniosos. Sabia digitar “venho por meio desta” de olhos fechados. Na rua, porém, estava completamente por fora. No busão, foi lendo uma lista de gírias que tinha salvado no celular na quarta. Tinha até o print de um textão que um colega de trampo escreveu sobre futebol. O colega falava pelos cotovelos e ninguém no escritório o levava a sério. — Relaxa — disse Marina, olhando o celular dele. — É tipo assim: ninguém decora gíria, a gente pega no susto.
No bar, Duda apresentou os outros dois e puxou assunto. — Firmeza? — perguntou Caio, batendo na mão dele. — Firmeza! — respondeu Rafael, achando que era o nome do rapaz. — Se liga nisso, mano: a Nayara largou o emprego ontem. — Chutou o balde, cansou de engolir sapo com aquele chefe. — Papo reto, o cara pisou na bola e enchia o saco todo dia. — E o salário não pagava nem a breja do fim de semana — completou Duda, pedindo duas. — O chefe torcia o nariz para tudo que ela sugeria — contou Nayara, sem drama nenhum. Rafael entendia cada palavra sozinha e nenhuma frase inteira.
A conversa seguiu num ritmo sinistro, e ele ia balançando a cabeça. Falaram da treta no grupo, do climão da festa passada, do corre de cada um. Nayara contou o babado do escritório antigo sem dó nenhuma e sem baixar a voz. — Chega de chororô — cortou Caio. — Você tá livre, aproveita. — Semana que vem tem outro, top demais, tá ligado? — disse Duda. — Que rolê da hora! — arriscou Rafael, e a mesa aprovou. Por um instante ele achou que tinha pegado o jeito da coisa. Aí Caio olhou para ele e riu. — Cara, você viajou na maionese agora, hein.
Rafael olhou o prato, sério, e chamou o garçom. — Desculpa, a maionese está estragada? — perguntou, afastando a batata. A mesa caiu na gargalhada e Nayara quase derrubou o copo. — Deu ruim — disse ela, secando o olho. — Pagou o maior mico. Rafael ficou vermelho e pensou em vazar dali sem falar com ninguém. — Fica de boa que eu resolvo — disse Marina, e explicou tudo devagar. Ele não deu um perdido nem tentou dar migué: riu junto e pediu a lista. — Quebra meu galho aí? — pediu. — Me ensina isso tudo. — Eu vacilei rindo na sua cara — disse Caio. — Mas foi engraçado pra caramba.
Nayara pegou um guardanapo e colocou a mão na massa ali mesmo. Escreveu quinze expressões, com desenho e tudo. — Quem fala pelos cotovelos não cala a boca nunca — explicou, desenhando um braço torto. — E quando você desconfia de alguém, fica com a pulga atrás da orelha. Desenhou a pulga com quatro traços e ficou orgulhosa do resultado. Escreveu com letra grande e redonda, porque a ideia era que ele guardasse o papel para sempre. — Amanhã você tira isso de letra — prometeu, entregando o guardanapo dobrado. Rafael dobrou o guardanapo de novo, com o mesmo cuidado que dobraria um documento. Marina viu aquilo e não disse nada, o que também é um jeito de rir de alguém.
Na calçada, Duda falou de um amigo metido a besta. — Esse aí precisa tirar o cavalinho da chuva — disse ele. Rafael parou, e de repente a frase fez sentido, sem tradução nenhuma. — Caiu a ficha! — gritou, alto demais para aquela rua. — Firmeza, mano — disse Caio, passando o braço pelo ombro dele. Virando a esquina, um paredão tocava funk num volume claramente ilegal. O som saía de uma gambiarra de fios que ninguém ali achava estranha. Rafael se amarrou naquele barulho todo e nem tentou explicar por quê. Dançou mal, como quem escreve e-mail formal há quinze anos, e ninguém reparou.
Mais tarde, a conversa virou futebol, como toda conversa vira em algum momento. Caio jurou que o gol de placa do domingo tinha sido dele, no campinho do bairro. — Depois daquele, eu podia pendurar as chuteiras em paz — disse, sério demais. Nayara achou que ia pirar de rir e contou que a bola tinha acertado o muro do vizinho. O barraco com a dona da casa durou vinte minutos e acabou com a bola confiscada. — Foi um perrengue explicar aquilo para ela — admitiu Caio, e a mesa inteira sacaneou ele. Duda perguntou se Rafael ia no próximo rolê, dessa vez num samba na Lapa. — Vou sim — respondeu ele, e a frase saiu certa, sem ensaio nenhum. No fim da noite, alguém criou um grupo no zap só para aquilo, com nome de piada de maionese.
No sábado, ele escreveu no grupo do jeito mais natural que conseguiu. — Cheguei em casa e quase surtei com o preço do táxi — mandou, e ninguém corrigiu nada. Marina respondeu com um print da mensagem e três pontos de exclamação. — Que perrengue, hein — escreveu Duda, e dessa vez Rafael entendeu de cara. A resenha do samba durou até as duas da manhã e ninguém falou de trabalho. Nayara chegou de mau humor, fez um piti por causa de um ex e esqueceu em dez minutos. — Confessa que ela virou seu crush — provocou Marina, a caminho de casa. — Na moral, ela é gente boa e fala demais — disse Rafael. — Só isso. — Maneiro, mano — respondeu Marina, imitando Caio, e ele riu alto na rua vazia.
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