para nós fazermos, antes de eles fecharem — bureaucracy as an adventure · ~855 words · level B2
Existe um ritual que todo estrangeiro no Brasil precisa cumprir: tirar o CPF. Sem esse número, não se abre conta, não se assina contrato, não se compra nem chip de celular. Para Rafael começar a vida nova de verdade, era o primeiro passo. Na véspera, ele imprimiu a papelada inteira em duas vias, sem saber ainda para que serviria metade daquilo. — Leva tudo — disse Marina. — Cada guichê inventa um requisito novo, e no fim sempre falta uma folha.
Ao entrar na agência, ele pegou uma senha: número oitenta e quatro. No painel, brilhava o número cinquenta e um. A triagem ficava logo na entrada; depois dela vinham trinta cadeiras de plástico e um ventilador que girava com a mesma lentidão dos trâmites. — É melhor você sentar — disse uma senhora, com a paciência de quem já tinha envelhecido em filas. — Aqui a gente aprende a aguardar, meu filho. Aguardar é esporte nacional. Duas horas depois, chegou a vez dele. E faltava uma cópia autenticada.
— Para eu processar o pedido, preciso da cópia com carimbo do cartório — explicou a atendente. — E antes de eles fecharem, você ainda consegue. Corre! Rafael correu três quarteirões, pegou outra fila, pagou o carimbo e voltou suando. No cartório ele descobriu que a assinatura do senhorio precisava de reconhecimento de firma, o que significava outro balcão, outro dia e outro comprovante. — Se o senhor não trouxer o documento devidamente preenchido, perde a viagem — avisou o funcionário público, de má vontade, sem levantar os olhos do teclado. — Rapidinho! — sorriu a atendente quando ele voltou. — Para o sistema gerar o número, são só dois minutos.
Só que o sistema não gerou coisa nenhuma. Três dias depois, chegou um e-mail com uma palavra que Rafael ainda não conhecia: indeferimento. O motivo constava no fim do e-mail, em letras minúsculas: a cópia do passaporte estava ilegível. — Ilegível? Eu vi o carimbo com meus próprios olhos! — O carimbo estava lindo — disse Marina pelo telefone, sem nenhuma piedade. — O problema é a página. Bem-vindo ao Brasil. O pedido ficou pendente, e o cadastro dele parou num limbo entre existir e não existir: no sistema ele não era Rafael, era “o requerente”, e o requerente não estava em lugar nenhum.
Foi a senhora da fila quem tinha dado a dica, semanas antes: — Se complicar, procura um despachante. O despachante se chamava Nelson, ocupava uma sala minúscula acima de uma padaria e tinha uma gaveta só de carimbos. — Me traz uma procuração e eu resolvo — disse ele. — Assim você não precisa comparecer a lugar nenhum. — E isso é legal mesmo? — Legalíssimo. Eu não furo fila, eu conheço o caminho. A repartição é a mesma para todo mundo; o que muda é saber qual guichê está aberto na terça de manhã. Numa quinta-feira, Nelson protocolou o novo requerimento e mandou uma foto do protocolo pelo celular, como quem manda foto de peixe pescado.
A exigência seguinte foi uma certidão que Rafael nem sabia que existia. A original tinha ficado na casa da mãe dele, do outro lado do oceano, então foi preciso pedir a segunda via e esperar o correio internacional. — O órgão competente é lento, mas é justo — disse Nelson, com a serenidade de um monge. — Lento é pouco. Isso é moroso — respondeu Rafael, que andava colecionando palavras difíceis como quem coleciona selos. — Olha só, o gringo já fala como advogado. Nelson riu, mandou Rafael rubricar cada página com a mesma caneta gasta e providenciou o que faltava sem explicar exatamente como.
Na quarta visita, o rapaz do balcão olhou a papelada, olhou Rafael e decidiu que não ia empurrar aquilo com a barriga mais uma vez. — Esse modelo aqui não está mais vigente, mas o resto está tudo em ordem. Vou deixar passar. Rafael quase pulou por cima do balcão para abraçar o rapaz. Nenhuma lei mudou naquela tarde de quarta-feira; o que mudou foi a boa vontade de uma pessoa atrás de um vidro. É isso que o Brasil chama de jeito, e é exatamente isso que nenhum manual consegue explicar para quem chega de fora.
E então, numa tarde de terça-feira, o pedido foi deferido: Rafael recebeu seu CPF. Onze números que, no Brasil, valem mais que qualquer passaporte. — Bem-vindo à vida brasileira de verdade — disse a atendente, entregando o papel. Do outro lado do guichê, a fila continuava, longa e resignada, esperando a vez de cada um. Ao sair, Rafael comemorou como manda a tradição: um pastel e um caldo de cana na feira.
Naquela noite, ele mandou mensagem para Marina: “Hoje enfrentei duas filas, um cartório e um carimbo. Deu tudo certo. Acho que agora eu sou oficialmente daqui.” A resposta veio em cinco segundos: “Sempre foi. Só faltava o número.” Ele não contou os quatro meses, o indeferimento, o Nelson, nem as três vezes em que quase desistiu no meio da papelada. Para a gente se entender, às vezes basta contar o final — e guardar os trâmites para a próxima cerveja.
The words in this story are taught in Lição 32
Every story in Rumo uses only words and grammar from its lesson and the ones before it, so you can read it after Lição 32 (level B2).
Open Lição 32 → All 40 stories in the reader →