irony, hedged refusals and subtext — sei…, imagina!, depois a gente marca, and everything nobody says out loud at a farewell party · ~1074 words · level B2
A despedida do Wagner foi numa mesa comprida de um bar em Pinheiros. Ele saía da empresa e apareceu até quem não gostava dele. Metade da mesa tinha ido pelo Wagner; a outra metade tinha ido pela cerveja e pela plateia. — Vai ser rapidinho — prometeu Marina, pedindo a terceira porção de pastel. Rapidinho, na boca dela, queria dizer quatro horas e uma conta dividida errado. — Tô morrendo de fome — disse Rafael. — E morrendo de medo do discurso. Ele já sabia que ali quase tudo teria duplo sentido. Depois de um ano no Brasil, tinha aprendido a ouvir duas frases ao mesmo tempo: a que era dita e a que não era.
A chefe levantou a taça e fez uma crítica disfarçada de elogio. — O Wagner é um profissional único. Único mesmo — disse, e a mesa riu. — Um talento raro, por assim dizer — completou ela, dourando a pílula com um sorriso enorme. Rafael captou a alfinetada antes de traduzir a frase na cabeça. Naquela mesa, todo elogio vinha com segunda intenção e uma gota de veneno no meio. Bia soltou um suspiro comprido e encheu o copo de todo mundo, que é o que se faz nessas horas.
Alguém perguntou como foi o último projeto dele. — Foi tranquilo — respondeu ele, no tom de voz de quem enterra o assunto. “Tranquilo” era o eufemismo mais gasto da empresa. Queria dizer três meses de caos, dois feriados perdidos e um relatório reescrito num domingo de chuva. — Sei… — devolveu a chefe, e veio um silêncio constrangedor.
Rafael olhou em volta: a sala inteira falava nas entrelinhas. Bia fazia cara de paisagem; Tiago mantinha um sorriso amarelo perfeito. Quando o nome do antigo diretor apareceu, Tiago fez uma careta rápida e voltou ao sorriso. Havia uma piada interna sobre planilhas que ninguém explicava a ninguém. Cada gozação vinha embrulhada em carinho, e cada carinho trazia um recado. O humor daquele grupo era ferino, mas quase nunca maldoso. Meses antes, teria achado tudo aquilo simpático. Agora sacava o subtexto inteiro, como quem ouve o baixo de uma música. Marina o cutucou por baixo da mesa e levantou uma sobrancelha, só para conferir se ele tinha entendido.
Então Wagner virou para ele com o copo na mão. — O gringo fala português melhor que muito brasileiro aqui. Só que não. A farpa saiu com açúcar por fora e ficou pendurada no ar. A mesa riu, mas o riso morreu rápido demais. Rafael fez cara de paisagem e esperou o riso baixar. Um ano antes, teria pedido desculpa por existir; naquela noite, resolveu levar na esportiva. — Imagina, Wagner. Aprendi tudo ouvindo você nas reuniões. — Aprendi principalmente os silêncios. Foi um elogio por fora e uma indireta ótima por dentro, e todo mundo chorou de rir.
Foi um tapa de luva, servido em voz baixa e com a maior educação do mundo. Wagner riu junto, meio atrasado, com um olhar torto de quem não gosta de perder. No meio da noite, Bia tirou da bolsa um cartão de despedida assinado pelo time inteiro. A frase escolhida era um monumento à ambiguidade: “Boa sorte, Wagner — você merece tudo o que vem por aí.” Ninguém precisou explicar nada; a mesa inteira subentendeu as duas leituras possíveis. Tiago, que nunca soube ler uma sala, resolveu completar a piada em voz alta. — Merece mesmo! Ainda mais depois do que aconteceu em março, né? Foi a gafe da noite, e ninguém quis passar pano para ele. A chefe tentou amenizar com uma frase sobre o time ser uma família, e Marina mordeu a língua com força.
Rafael descobriu ali que existe uma coisa pior que uma indireta: uma direta. Depois daquilo, passou o resto da noite se esquivando de convites. — Rafael, entra no grupo do futebol de quinta? — perguntou Tiago. — Vou ver — disse ele. — Tô meio enrolado esse mês. A evasiva saiu perfeita, com o tom certo e a pausa certa no meio. — Manda o currículo do seu amigo que eu dou uma olhada — ofereceu a chefe. — Ah, que gentileza. Eu mando — respondeu Rafael, sem a menor intenção de mandar. Quando insistiram, ele desconversou e perguntou onde ficava o banheiro. Nenhuma frase era mentira, nenhuma era verdade, todas eram gentis.
No corredor, perto da porta da cozinha, Bia acendeu o cigarro que jurava ser o último do ano. — Você tá ficando bom nisso — cutucou ela, sem olhar para ele. — Em quê? — Em dizer não sem dizer não. Um ano atrás você respondia “não posso” e todo mundo ficava sem graça. — É que aqui ninguém diz não na cara da pessoa — retrucou Rafael. — A gente procura uma saída diplomática. — “A gente” — repetiu Bia, achando graça no pronome. — Olha só quem virou nativo. — Aprendi com vocês: aqui o comentário mais ácido vem com o sorriso mais largo. — É sutil — admitiu ela. — Bem feito, é espirituoso; mal feito, vira chacota e alguém chora no táxi. — E hoje, o Tiago?
— Hoje o Tiago foi o táxi inteiro — disse Bia, apagando o cigarro. Na porta, Wagner abraçou um por um, distribuindo promessas. — Gente, vamos manter contato. Depois a gente marca um churrasco lá em casa. — Fechado! Qualquer coisa eu te aviso — respondeu Bia, já de costas. Rafael não pegou o celular, não perguntou o dia, não anotou nada. Na calçada, Marina o olhou de lado, fingindo inocência. — E o churrasco? Você vai? — perguntou ela. Aquilo era jogar verde para colher maduro, e ele viu a isca chegando de longe. — Que churrasco? — disse Rafael, com a maior cara de paisagem do mundo.
Marina morreu de rir até o farol da esquina. No dia seguinte, o grupo do trabalho amanheceu com uma mensagem do Wagner. “Galera, já bateu saudade! Semana que vem eu marco o churrasco, hein?” Duas pessoas responderam com um polegar para cima, e depois disso ninguém mais falou nada. Rafael leu aquele silêncio como quem lê uma legenda. Marina mandou um áudio de sete segundos só para dizer: “Você viu?” — Vi — respondeu ele. — Semana que vem, né? — Semana que vem — confirmou ela, com todo o respeito do mundo e nenhum. Ele guardou o celular, riu sozinho na fila do café e não explicou a piada para ninguém.
The words in this story are taught in Lição 39
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