foi criado, aluga-se, como se diz: reading the streets of Minas · ~640 words · level B1
Sofia passou o feriado em Minas Gerais, a terra do pão de queijo. A cidadezinha inteira parecia escrita: cada parede tinha um recado, cada porta tinha um convite. As fachadas eram azuis, amarelas, cor de goiaba, todas com a tinta descascada pelo sol e um toldo listrado na frente. Na calçada estreita, o comércio já começava cedo: seis da manhã e as portas de vidro estavam abertas. Na primeira rua, ela leu uma placa: “Vende-se pão de queijo. Feito na hora.”
— Como se diz “cheese bread” mesmo? — brincou ela, entrando na loja. — Aqui se diz “felicidade” — respondeu a dona, rindo atrás da bancada de fórmica. Dona Zélia chamava os fregueses pelo nome e sabia o pedido de cada um de cor. Nas prateleiras, os potes de doce de leite tinham um rótulo manuscrito, com a data e o sabor. Cada embalagem trazia um aviso pequeno: “queijo artesanal, da fazenda do seu Antônio”.
Dentro, tudo era feito à mão, como antigamente. — A massa é feita com polvilho, e o queijo tem que ser da região — explicou a dona. — Diz-se que a receita foi criada aqui em Minas, no século dezoito. — E como se escreve “polvilho”? — perguntou Sofia, anotando tudo. Dona Zélia rabiscou a palavra num guardanapo, letra por letra, como se ensinasse uma criança teimosa. — No sábado saem trinta encomendas — contou ela. — A entrega é feita de bicicleta, pelo meu neto.
Na saída, outra placa chamou a atenção dela: “Aluga-se cozinha profissional.” Embaixo do anúncio, um homem de macacão pintava um letreiro novo, apoiado numa escada velha. Seu Odair trabalhava com pincel e tinta, sem computador, do jeito artesanal de sempre. — Faço letra por letra — disse ele. — Se uma sai tremida, eu apago e começo tudo de novo. — O senhor pinta o dia inteiro? — Pinto. Um letreiro bom divulga a loja melhor do que qualquer rádio. Na parede atrás dele, uma placa antiga anunciava, sem modéstia nenhuma: “Conserta-se de tudo”.
Sofia foi andando e lendo a cidade como quem lê um livro devagar. Numa porta fechada: “Volto já”. Na outra, um cartaz colado com fita: “Fechado para balanço”. Num portão azul, alguém tinha pintado em letras enormes: “Proibido estacionar”. Na banca da praça, as revistas estavam presas com prendedores de roupa, balançando ao vento. — O senhor sabe quanto custa alugar aquela cozinha? — perguntou ela ao jornaleiro. — Aquela ali? A preço de banana. O dono se mudou para Belo Horizonte e ninguém quis o ponto.
Sofia parou. Pensou. Sorriu. Fala-se muito em destino — mas às vezes o destino é só uma placa na parede certa. Ela tirou uma foto e mandou para Marina: “E se a gente abrisse uma padaria?” A resposta chegou em dez segundos: “O nome já foi escolhido: Pão do Gringo.” Sofia riu sozinha no meio da rua, e dois fregueses que passavam riram juntos, sem saber de quê.
Naquela mesma tarde, a cozinha foi visitada, medida e discutida em voz alta. O forno era antigo, mas ainda funcionava; a bancada de madeira precisava de uma lixada e nada mais. — Se tudo der certo, a padaria vai ser inaugurada em setembro — anunciou Sofia ao telefone. — E o letreiro? — quis saber Marina. — Toda padaria séria tem um letreiro chamativo. — Já falei com o pintor: a encomenda foi feita hoje, e ele pediu duas semanas.
Duas semanas depois chegou uma foto do seu Odair: fundo verde, letras amarelas, nenhuma tremida. O letreiro foi afixado na fachada num sábado de manhã, com meia rua olhando e opinando. Embaixo do nome, em letra menor, lia-se: “Vende-se felicidade. Feito na hora.” Em Minas, vende-se pão de queijo em cada esquina. Mas naquela manhã, vendeu-se também um sonho — e ele foi entregue quentinho, numa embalagem de papel.
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