-inho, -zinho, -ão, -ona — diminutives and augmentatives on a Saturday at the grandmother's house · ~850 words · level B2
Num sábado de sol, Marina levou Rafael à casa da avó dela, dona Rosa. — É só um cafezinho — prometeu ela. — Meia horinha e a gente volta. Rafael acreditou, porque ainda não conhecia a família dela direito. A casinha tinha uma florzinha em cada vaso da varanda. Na porta, dona Rosa abriu os braços e o acolheu. — Que gracinha! — disse ela, segurando o rosto dele. E deu um beliscão de leve na bochecha do rapaz, do jeito que só avó pode dar.
Em dois minutos chegaram à mesa a xícara de café, o pãozinho e um bolo de fubá. Dona Rosa não usa máquina nenhuma: ferve a água, arma o coador de pano e faz o café gota a gota. Depois guarda tudo numa garrafa térmica antiga, com adesivo de banco dos anos noventa. A xícara veio com pires, porque visita de primeira vez merece pires. Rafael elogiou o bolo, e o elogio foi o maior erro do dia. — Come mais um pedacinho! — disse dona Rosa, cortando uma fatia enorme. Ele explicou baixinho que já tinha almoçado, e ela fingiu não escutar.
De avental, ela sumiu na cozinha e voltou com uma bandeja que não cabia na mesa. Da despensa saíram uma broa de milho, um pote de doce de leite e três tipos de guloseima. — Fiz tudo com capricho ontem à noite, sabendo que você vinha — disse, sem esconder o orgulho. Cada quitute tinha uma história e um nome de gente: a receita da comadre Zulmira, o bolo da irmã mais velha. — Adoça mais um pouquinho — mandou ela, e adoçou o café dele sem esperar resposta. A mesa estava coberta por um crochê feito à mão, que não podia receber uma gota de café. Rafael passou a tarde inteira com medo daquele crochê.
A casa era feita de coisas pequenas: o tapetinho, o travesseirinho bordado, a poltrona funda. No quintal, uma rede aconchegante balançava sozinha, e o ar tinha aquele cheirinho de terra molhada. — Senta, meu filho, tira um cochilinho — disse a avó. — Eu faço mais café. Um gato gordo subiu no colo de Rafael e decidiu, em três segundos, que aquele era o lugar dele. Marina deitou na rede e ficou se embalando com a ponta do pé no chão. Dona Rosa fez cafuné na neta como se ela tivesse sete anos, e ninguém achou aquilo estranho.
Chegou a vizinha, uma mulherona, com uma tacinha de licor caseiro. Era a comadre Zulmira, amiga de cinquenta anos e xereta de nascença. Em quatro minutos ela já sabia a idade de Rafael, o salário aproximado e o nome da mãe dele. — Só um minutinho! — gritou dona Rosa da cozinha, e voltou com outro agrado. O mexerico do bairro passou inteiro pela mesa: o divórcio da esquina, a reforma do 302, o cachorro que sumiu. Dona Rosa mimava todo mundo, e a mesa virou uma bagunça de canecas.
Às quatro chegou o tio Beto, rabugento desde criança, segundo a própria mãe. Sentou, resmungou sobre o trânsito, resmungou sobre o preço do gás e resmungou sobre o time. — Esse aí é a implicância em pessoa — sussurrou Marina. — Não leva a sério, tá? O tio começou a pegar no pé de Rafael por causa do sotaque e do jeito de segurar o garfo. — Gringo come devagar demais — disse. — Isso é abusado ou é educação? Dona Rosa olhou para o filho por dois segundos, e o homem de cinquenta anos virou menino. — Beto, come o bolo e fica quieto. Ele fez birra, cabeçudo como um portão emperrado, mas comeu duas fatias.
Meia hora depois o tio já estava explicando ao rapaz onde comprar peixe bom e barato. Deixaram pra lá sem ninguém pedir desculpa, que é como se resolve briga naquela casa. Rafael beliscava o bolo devagarinho, tentando não parecer cheio nem mal-educado. Dona Rosa afagou a cabeça do filho ao passar, e o homem fingiu não ter gostado. — Ela é assim, sem frescura — disse Marina. — Com todo mundo, a vida inteira.
Marina virava mãezinha perto da avó e arrumava tudo sem reclamar. — Ela te chamou de queridinho — sussurrou. — Isso aqui é intimidade, viu? Rafael entendeu enfim: não era elogio nem paquera, era chamego, e chamego não se recusa. Na saída ele ganhou um potinho de bolo e uma florzinha do vaso. Ganhou também meia broa, o resto do doce e um vidro de geleia, tudo de mão beijada. — Que fofura de menino — disse dona Rosa. — Volta domingo, viu, amiguinho?
Na calçada, ao lado de um carrão prateado, Rafael parou. O bule ainda estava quente lá dentro; dava para ouvir a xícara batendo no pires na cozinha. — Virei o xodó da sua avó e nem sei o apelido que ela me deu. — Não tenho essa palavra na minha língua, esse tanto de carinho. — Tem, sim — disse Marina. — Você só nunca tinha precisado dela. Foram embora às seis da tarde, quatro horas e meia depois da meia horinha prometida.
The words in this story are taught in Lição 34
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