spoken Brazil — tá, tô, a gente, and twenty lessons at one barbecue · ~1038 words · level A2
Sábado, meio-dia, sol de trinta graus — dia perfeito de churrasco. Na casa do Marcão, a turma toda estava chegando. — Opa! Tudo joia? — falou ele, abrindo a porta. — Fica à vontade! A mesa já estava cheia: carne, pão de alho, arroz, e uma montanha de refrigerante. No quintal, as cadeiras esperavam debaixo da árvore grande. Meio-dia e meia, o quintal já estava lotado de gente animada. Rafael chegou cedo, com um pacote de pão de alho debaixo do braço. A galera fazia tanto barulho que o cachorro do vizinho começou a latir. — Cadê a Marina? — perguntou alguém. — Tá chegando! Ela ligou do carro.
Marina chegou com o Wagner e com uma sobremesa enorme. — Oi, sumida! — gritou a turma inteira. — Gente, desculpa! O trânsito estava impossível — falou ela, rindo. — Relaxa. A gente só começa a comer quando todo mundo chega — falou Marcão. — Então bora! Tô com uma fome de três dias! Wagner entrou atrás dela carregando duas sacolas e reclamando do calor. — Opa, chegou a sobremesa! Põe na geladeira, senão derrete — falou Camila.
Vinte minutos depois, o Marcão descobriu o problema do dia. — Gente, acabou o gelo. E o isopor tá vazio. — Eu vou lá — falou Rafael. — O mercado é logo ali, né? — Topa ir junto, Bruno? Duas sacolas é muita coisa. — Bora. A gente volta daqui a pouco — respondeu Bruno, já pegando a chave. No caminho, apareceu o vizinho do Marcão com um cachorro do tamanho de um sofá. — Churrasco hoje? — perguntou ele, olhando muito para as sacolas. Bruno olhou para Rafael, Rafael olhou para o chão, e os dois convidaram o homem. Voltaram com gelo, mais refrigerante e um vizinho novo na turma.
Marcão era o churrasqueiro oficial da turma, e levava isso muito a sério. Ninguém podia chegar perto da churrasqueira sem autorização dele. — A picanha eu tempero só com sal grosso. Mais nada — explicou ele, com orgulho. A linguiça já estava quase pronta, e os espetinhos de queijo iam por último. Camila trouxe uma farofa caprichada, com bacon, ovo e cebola. — Capricha no ponto da carne, Marcão. O Wagner não come nada malpassado. Meia hora na frente do fogo e o Marcão já estava suado e completamente feliz. — Isso aqui é ciência, gente. Churrasco bom não tem pressa.
Enquanto a carne estava na churrasqueira, as histórias começaram. Rafael contou de novo a história do gato Pipoca e do apagão — a noite era dele, todo mundo já sabia de cor, mas ninguém cansava. — Eu estava vendo um filme de terror quando a luz apagou… — começou ele, pela décima vez. — A gente sabe, Rafael! O monstro era o gato! — gritou a turma, zoando ele. Camila falou do trabalho novo: — Adoro a empresa. O chefe é legal, o salário é bom… e as férias começam em dezembro! — E você, Rafael? Como vai o português? — Tá indo! Terminei a lição vinte hoje de manhã. — Vinte lições! Então fala uma coisa em português aí! — Beleza: tô com fome, cadê a carne? A turma aplaudiu. Resposta perfeita. — E você já fala "tipo assim" sem perceber — falou Camila. — Isso ninguém ensina. — É verdade. Tipo, eu nem penso mais. Sai sozinho — respondeu Rafael. — Pronto, gente — falou Wagner. — Agora é oficial: o menino virou brasileiro.
Depois do almoço, alguém resolveu puxar assunto sobre o campeonato. Foi o fim da paz. — Torço para o mesmo time desde criança — falou Camila. — Meu pai também torcia. Wagner fez uma cara de dor: — Então a gente não pode mais ser amigo. Bruno era o único torcedor do time pequeno da cidade, e sofria calado. A turma começou a zoar o Bruno, como sempre acontece nos churrascos. — No ano que vem a gente sobe de divisão! — falou ele, sem convencer ninguém. — Isso você falou no ano passado, Bruno. E no ano retrasado também. — Era brincadeira, gente. Mas ele quase chorou — contou Marina depois, na cozinha.
Lá pelas quatro da tarde, Wagner tirou um violão velho do porta-malas do carro da Marina. — Ih, começou a roda de samba — falou Marcão, muito satisfeito. A caixa de som ficou de lado, esquecida em cima da geladeira. Ninguém quer música gravada quando tem alguém tocando ali na mesa. Cantaram pagode antigo, aquelas músicas que os pais deles ouviam no rádio. Rafael não sabia cantar quase nada, mas batia palmas no tempo certo. — Canta junto, gringo! O resto é só "ê ê ê"! — gritou Wagner. Às seis da tarde, o quintal estava barulhento de um jeito bom. O vizinho novo, o do cachorro grande, cantava mais alto que todo mundo.
Um pouco depois, o céu ficou nublado. — Ih, olha as nuvens. Vai chover? — perguntou Marina. — Que nada! — falou Marcão. — A previsão falou sol o fim de semana todo. Cinco minutos depois, começou a chover. — A PREVISÃO FALOU SOL! — gritou Bruno, correndo com os pratos para dentro de casa. Todo mundo riu. Bruno e as previsões do tempo eram uma piada antiga da turma.
Dentro de casa, o churrasco continuou do mesmo jeito, com chuva e tudo. Alguém ligou o som, alguém contou mais uma piada, e a chuva virou parte da festa. Às nove da noite, todo mundo olhou a mesa: não sobrou nem um grão de arroz. — Sobrou farofa — falou Bruno. — Farofa sempre sobra. É uma lei da natureza. — Sabe o que eu acho? — falou Marina. — Churrasco bom não depende do tempo. Depende da turma. — Combinado então: próximo sábado, tudo de novo? — perguntou Marcão. — Combinado! — respondeu todo mundo, ao mesmo tempo. — Uma saideira antes de ir? — perguntou Wagner, já servindo todo mundo. A saideira durou mais uma hora, como toda saideira brasileira. No fim da noite, os abraços, os valeus e os falous duraram meia hora na porta. — É isso aí, gente. Valeu mesmo — falou Rafael, na porta, em português inteiro. Porque no Brasil, a despedida é só o começo da próxima festa.
The words in this story are taught in Lição 20
Every story in Rumo uses only words and grammar from its lesson and the ones before it, so you can read it after Lição 20 (level A2).
Open Lição 20 → All 40 stories in the reader →