futuro simples — morarei, farei, será: a promise over coffee · ~639 words · level B1
Numa tarde de domingo, Marina e o primo dela, Rafael, tomavam café na varanda. — Rafa, posso te fazer uma pergunta séria? — disse Marina. — Claro. Pode perguntar. — Onde você estará daqui a dez anos? Rafael olhou para a rua vazia, para o cachorro do vizinho dormindo no sol, e demorou para responder.
Rafael pensou um pouco e sorriu. — Daqui a dez anos, eu morarei perto do mar. — Trabalharei com música e terei um estúdio pequeno. — E falarei inglês perfeitamente, porque viajarei pelo mundo. — Não é sonho de criança, não. É um plano ambicioso, mas com data marcada.
— Bonito plano! Mas será que você terá coragem? — perguntou Marina. — Terei. A partir de janeiro, começarei a poupar todo mês. — Abrirei uma poupança só para isso e não mexerei nela nunca. — E o carro? Você ainda paga aquele empréstimo do banco. — Pago. Mas a dívida termina em março, e depois esse dinheiro vira investimento.
Marina foi buscar papel e caneta, porque promessa sem número é conversa de domingo. Rafael virou um boleto velho e começou a fazer a conta na ponta do lápis. — Quinhentos reais por mês, vezes doze meses, vezes dez anos: sessenta mil. — E os juros? — disse Marina, que olhava o extrato do banco toda semana. — Os juros ajudarão um pouco. Não farei fortuna, mas será um começo realista.
— Sua mãe dirá que você está louco. — Ela dirá, sim. Mas depois entenderá. Mães sempre entendem. — Minha tia é prática: ela perguntará da sua aposentadoria antes de perguntar do mar. — E ela terá razão. Guardar dinheiro para o futuro distante também é uma etapa. — Só que ninguém aguenta dez anos de sacrifício sem nenhuma recompensa no meio. — Por isso eu dividirei o plano em fases. Cada fase durará dois anos.
Em junho veio o primeiro imprevisto: a geladeira da casa dele morreu numa terça-feira. Rafael tirou o dinheiro da poupança, comprou outra geladeira e ficou três dias de mau humor. — Vou abrir mão do plano — disse ele ao telefone. — Não dá. — Você não vai abrir mão de nada — respondeu Marina. — Você vai encarar a conta e recomeçar em julho. — Um imprevisto muda o mês. Não muda o rumo.
Rafael recomeçou em julho, com um valor menor e uma cara bem menos alegre. Marina percebeu que o primo dela estava amadurecendo do jeito mais sem graça possível: com calculadora e caderno. — No fundo, eu sempre soube que o difícil não é começar. É continuar. — Cedo ou tarde todo mundo descobre isso — disse Marina, mexendo o café. — E você? Está disposta a fazer o mesmo? — perguntou ele.
Marina ficou quieta, porque ela também tinha um plano guardado há muito tempo. — Eu vou tirar o meu curso de fotografia do papel, de uma vez por todas. — Farei o curso à noite e no ano seguinte alcançarei a minha primeira meta: clientes de verdade. — Aposto que você realizará o seu sonho antes de mim — disse Rafael. — Aposta feita. O perdedor paga o churrasco. — Eu vou cumprir a minha parte, viu? Sempre cumpri.
Marina levantou a xícara de café como quem faz um brinde com champanhe. — Então é uma promessa. Em dez anos, eu irei te visitar no seu estúdio perto do mar. — Combinado. E eu farei o melhor churrasco da sua vida. — Quem sabe até lá eu trarei meu próprio violão! — riu Marina. Eles escreveram as duas promessas atrás do boleto velho e prenderam o papel na geladeira nova. Uma década é um prazo sensato, um pouco ambicioso e muito mais duradouro do que a vontade de uma tarde. Promessas de domingo são as mais fortes. Todo brasileiro sabe disso.
The words in this story are taught in Lição 21
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