Prezado Senhor, venho por meio desta, fico à disposição — the formal register and the first proposta comercial written in Portuguese · ~1051 words · level B2
A demanda chegou na terça, já no fim do expediente. A chefia pediu que Rafael redigisse a proposta comercial de um cliente em potencial. O setor inteiro tinha ido embora e a diretoria queria o orçamento na quarta. Ele abriu um rascunho em branco e digitou o assunto do e-mail. Nunca tinha escrito nada oficial em português. O cliente tinha aparecido por causa de um anúncio que a empresa publicou no Diário Oficial. — Ali tudo é escrito em juridiquês — avisou Wagner. — Ninguém fala assim em casa, graças a Deus. — Você vai ter que aprender a escrever como se fosse outra pessoa.
A primeira versão saiu exatamente do jeito que ele falava. “Oi! Segue o orçamento aí. Qualquer coisa me chama.” — Isso parece mensagem de aplicativo — disse Wagner, lendo por cima do ombro. — Mas é simpático — respondeu Rafael. — É íntimo demais, e quem escreve assim aqui está com pressa ou com raiva. — No papel a gente fica empolado de propósito — explicou ele. — Formalidade é distância medida em palavras. Rafael achou tudo aquilo rebuscado demais, mas anotou mesmo assim.
Wagner puxou a cadeira e começou a ditar a saudação, palavra por palavra. “Prezado Senhor Almeida, venho por meio desta solicitar a análise da proposta.” “Segue em anexo o orçamento detalhado, aos cuidados do setor financeiro.” — Agora a despedida formal — disse ele. — Fico à disposição para esclarecimentos. — E fecha com Atenciosamente, nunca com um abraço. A solicitação virou uma parede de cerimônia. — Quando você não sabe quem vai ler, escreve “A quem possa interessar” e segue a vida — completou Wagner. — E, se quiser fechar bonito, termina com “Sem mais para o momento”, que é o jeito educado de dizer acabou.
Ele conferiu o remetente, pôs a chefia em cópia oculta e clicou em enviar. Dois minutos depois veio o frio na barriga: tinha esquecido de anexar o arquivo. Wagner riu tanto que derrubou café na pauta da reunião de alinhamento. — Escreve outro — disse ele. — E não pede desculpa como criança. “Peço a gentileza de desconsiderar a mensagem anterior; encaminho agora o documento correto.” “Solicita-se a confirmação do recebimento. Agradeço desde já a atenção.” — Isso, no mundo do papel, chama-se errata — disse Wagner, ainda rindo. — Todo mundo já mandou uma. Ele mandou Rafael reiterar o pedido sem se humilhar e sem explicar demais. — Peça a confirmação em tempo hábil e pare de escrever — disse ele. — Texto comprido é pedido de perdão disfarçado.
A resposta chegou na manhã seguinte, curta e cheia de cerimônia. “Prezado Rafael, acuso o recebimento. Cordialmente.” Não veio reclamação formal nem parecer ruim: a proposta foi encaminhada ao financeiro. À noite, Marina leu tudo e riu do cargo que ele inventou no cabeçalho. — Por que tanta volta para dizer uma coisa simples? — perguntou ele. — Porque a volta é o cuidado — disse ela. — Com quem a gente ama, vai direto; com quem a gente respeita, dá a volta.
Na semana seguinte, o cliente aceitou a proposta e mandou o contrato para leitura. Chegou impresso em papel timbrado, com o logotipo em relevo e nove páginas de juridiquês. O teor mudava completamente da terceira página em diante. — O que importa nunca está no começo — disse Wagner, apontando o parágrafo quinze com a caneta. Havia um artigo de rescisão que permitia ao cliente sair do acordo em trinta dias. Pior: o contrato passaria a vigorar na data da assinatura, e não na data da primeira entrega. Rafael pediu para prorrogar a assinatura por três dias e escreveu um ofício curto explicando o motivo. Faltava ainda um adendo sobre manutenção, que o cliente prometeu enviar até sexta. Para a surpresa dele, o jurídico do cliente acatou o pedido sem discutir uma linha.
O jurídico respondeu, porém, num tom ríspido que Rafael levou para o lado pessoal. — Não é com você — disse Wagner. — Advogado escreve impessoal; é quase uma questão de higiene. — E aquele “Vossa Senhoria” no meio do texto? Isso ainda existe? — perguntou Rafael. — Existe, e é o pronome de tratamento mais seguro quando o interlocutor é um desconhecido de gravata. Wagner explicou que cada área tem o seu jargão e que a gente entra nele como quem entra em piscina fria. — Quando a notícia é ruim, você dá uma volta: “houve um contratempo” em vez de “deu tudo errado”. — E evita o gerundismo, aquele “vou estar enviando” que dá dor de dente em qualquer brasileiro. — Seja sucinto — completou. — Frase curta parece confiança; frase comprida parece desculpa.
Rafael reescreveu a resposta três vezes, tentando cobrar sem soar covarde nem agressivo. A redação final tinha seis linhas e nenhuma palavra que ele não entendesse. Ele endereçou a mensagem ao setor jurídico e mandou uma cópia ao próprio senhor Almeida. “Reitero o pedido de ajuste no prazo e permaneço à disposição para dirimir qualquer dúvida.” “Agradeço a atenção e aguardo o retorno em tempo hábil. Sem mais para o momento.” A resposta veio em quatro minutos: “Recebido. Doravante, tratar diretamente comigo. Abraço.” Wagner leu por cima do ombro e disse que aquele abraço no fim valia mais que a proposta inteira. — Ele passou de Prezado Senhor a abraço em nove dias — explicou. — Aqui dentro, isso é promoção.
A chefia pediu para formalizar o acordo num documento único, com anexo e tudo. Dois dias depois, o setor recebeu um memorando interno com o assunto “Padrão de comunicação externa”. O modelo em anexo era, palavra por palavra, o e-mail de Rafael, sem o nome dele em lugar nenhum. Wagner achou graça e disse que assim funciona: quem escreve bem vira modelo e some. No fim do memorando, uma linha impessoal avisava que dúvidas deveriam ser encaminhadas “a quem possa interessar”. — Isso é rebuscado até para eles — disse Rafael, que já conseguia sentir quando o texto ficava empolado. À noite, Marina quis saber por que ninguém simplesmente escreve “está tudo certo”. — Porque a formalidade é o abraço de quem ainda não pode abraçar — disse ele, orgulhoso da frase. Ela riu, pegou um cartão e mandou ele escrever aquilo de próprio punho, para ver se sobrevivia fora do e-mail.
The words in this story are taught in Lição 36
Every story in Rumo uses only words and grammar from its lesson and the ones before it, so you can read it after Lição 36 (level B2).
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