concordo, discordo, onde, pelo contrário: the eternal debate · ~872 words · level B1
Existe uma pergunta que divide o Brasil mais que futebol: praia ou montanha? Na mesa do bar, a discussão começou com Sofia: — Praia, claro! Na minha opinião, não existe nada melhor que o mar. — Discordo totalmente! — respondeu Rafael. — A praia é lotada, quente e cheia de areia. — Areia é detalhe. Você está dramatizando, como sempre. — Estou sendo realista, que é bem diferente. O garçom trouxe mais duas cervejas e fingiu que não ouviu nada.
— Pelo contrário! A praia onde eu vou é calma e limpa. — Tá, mas pensa na montanha: o ar puro, o silêncio, a vista… — Concordo que a vista é linda. Mas e o frio? — Em primeiro lugar, frio a gente resolve com casaco. Além disso, montanha tem cachoeira! — E a praia tem pôr do sol, peixe fresco e nenhuma estrada de terra. — Estrada de terra é charme. — Estrada de terra é pneu furado às sete da noite, no escuro, sem sinal de celular. Rafael riu, porque isso já aconteceu com ele duas vezes.
— Hmm. Cachoeira é o único argumento com que eu concordo — admitiu Sofia. — Viu? E a cidade onde eu nasci fica perto da serra. Sou suspeito! — Ah, agora tudo faz sentido! Você defende a montanha por saudade. — Por um lado é memória. Por outro, é bom gosto! — Confessa logo: você quer mesmo é largar a capital e ir morar no interior. Rafael ficou quieto tempo demais, e o silêncio respondeu por ele. — Quero, sim. E não vejo problema nenhum nisso. — Seria uma loucura. Seu trabalho está aqui, seus amigos estão aqui. — Metade da minha equipe trabalha de casa. O mundo mudou e ninguém avisou você.
— Então vamos comparar de verdade — disse Sofia, virando o guardanapo para fazer conta. — Aqui você paga caro por tudo, mas tem hospital, metrô e emprego. — E paga também com duas horas por dia dentro de um engarrafamento. — Isso é preço de cidade grande. Todo mundo sabe disso quando chega. — No interior o aluguel é metade, e a qualidade de vida é outra. — Isso é romântico demais para ser verdade. — Não é romantismo, é conta de padaria. Eu fiz essa conta três vezes. — Então traz as estatísticas, porque poesia não me convence. — Trago na semana que vem. E você vai ter que dar o braço a torcer.
— E tem outra coisa — continuou Rafael. — Na cidade a gente vive dentro de uma nuvem de poluição e finge que não vê. — Como se no interior não houvesse fumaça. Em agosto queimam o mato inteiro. — O desmatamento é um crime, e eu sou o primeiro a dizer isso. — Então reconhece que o campo também tem culpa. — Reconheço. Mas na minha rua tem coleta seletiva e mesmo assim ninguém separa nada. — A reciclagem só funciona quando dá vergonha não reciclar. — Por falar nisso: você ainda pede canudo de plástico? — Parei faz um ano. E instalei energia solar no telhado da casa da minha mãe. — Isso eu preciso admitir: foi uma escolha sustentável de verdade, sem discurso. — E, de quebra, acabou com o desperdício de energia da casa inteira.
— Mesmo assim, você está sendo teimoso — disse Sofia. — Ninguém muda de cidade por causa de uma horta. — Não é por causa da horta. É por causa do que a horta representa. — Isso não é argumento, isso é frase de camiseta. — É um argumento razoável, e você sabe. — É absurdo, Rafael. Rafael rebateu na hora, sem levantar a voz: — Absurdo é pagar caro para dormir mal e acordar com barulho de obra. — Agora você está questionando o meu apartamento? — Estou questionando a conta, não o apartamento. Sofia riu alto, mas não cedeu um centímetro.
— Vou te dizer uma verdade: existe muito preconceito dos dois lados. — Quem mora na capital acha que interior é atraso. Quem mora longe acha que a capital é doença. — E os dois estão errados na mesma proporção. — Esse é o primeiro argumento convincente da noite — disse Sofia. — Só o primeiro? — Não abuse. Estou cedendo devagar, e cedendo dói. — Minha prima mudou para uma cidade pequena e voltou em oito meses — lembrou Sofia. — Voltou por quê? — Choveu uma semana, teve enchente, e ela descobriu que o hospital ficava a setenta quilômetros. — Isso não derruba a ideia. Só mostra que compensa pesquisar antes de sonhar.
A discussão durou duas horas e ninguém convenceu ninguém. Rafael bateu o pé até o último gole da cerveja, e Sofia não recuou nem para respirar. No fim das contas, os dois queriam a mesma coisa: menos barulho e mais tempo. — Resumindo — disse Sofia — que tal a gente marcar praia E montanha? — Agora sim! Nisso a gente concorda plenamente! Marcaram para o feriado: dois dias na serra, dois dias no litoral e uma discussão nova no caminho. Se Sofia ganhasse a discussão, a viagem seria só praia, e bem mais chata. No Brasil, todo bom debate termina assim: com um plano de viagem.
The words in this story are taught in Lição 26
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