tinha caído, disse que, de repente: a party story with a twist · ~815 words · level B1
— Você perdeu a festa de ontem! — disse Marina. — Tenho uma história para te contar. — Conta! Conta tudo, com detalhes! — pediu Rafael. — Então: quando eu cheguei, o bolo já tinha caído no chão. — Não acredito! Como assim?! — Calma, porque essa história tem três versões, e nenhuma combina com a outra. — Cá entre nós, você adora uma história complicada. — Eu adoro a verdade. O problema é que a verdade também tinha caído no chão.
— A primeira versão é a da Júlia, dona da casa e dona do gato. — Ela jurou que o gato tinha pulado na mesa no meio da conversa. — Esse gato de novo! Ele já tinha derrubado a árvore de Natal, lembra? — Esse mesmo. Danado. Faz uma travessura por dia, e no domingo faz duas. — E ele comeu o bolo? — A Júlia disse que ele tinha comido metade do recheio antes de alguém perceber. — E tinha mesmo? — Tinha creme na boca dele. Estava lambendo o bigode com a maior calma do mundo. — Então o culpado é ele. Caso encerrado, próxima fofoca. — Foi o que todo mundo achou. Aí o Seu Almeida subiu da portaria com outra história.
— O porteiro? O que ele tinha visto? — Ele contou que, uma hora antes, o cachorro do 302 tinha fugido pelo corredor. — Sem coleira, claro. Aquele cachorro nunca usou coleira na vida. — Exato. E o Seu Almeida disse que tinha ouvido o cachorro latir dentro do apartamento da Júlia. — Tinha cachorro na festa?! Ninguém tinha me contado isso. — E tinha pegada de barro na sala, grande, do tamanho de um pires. — Pegada não mente, Marina. — Pegada não mente, mas cachorro não come bolo de chocolate. Come ração e pede mais. — E aí a suspeita mudou de dono outra vez.
— A essa altura, a festa inteira já tinha virado uma investigação. — E a fofoca correu de boca em boca, imagino. — Correu. Em dez minutos, a vizinhança toda tinha ouvido dizer que o gato tinha atacado uma criança. — Uma criança?! Não tinha criança nenhuma naquela festa! — Exatamente. As pessoas inventam, depois exageram, e por aí vai. — A dona Cida chegou dizendo que o gato tinha mordido o carteiro em março. — Esse prédio é exagerado demais. — No fim virou aquele disse me disse: cada um contava a versão que tinha ouvido do vizinho.
— Espera. E o Pedro? Ele foi? — De repente, o Pedro apareceu na festa… com a Ana! — Jura?! Mas ele não tinha dito que estava viajando? — Tinha! Ele falou que ia passar o mês na casa da mãe dele. — Que mentiroso! — Foi exatamente o que a Júlia disse, e disse alto. — Ela perguntou, na frente de todo mundo, se ele não tinha vergonha. — Pegou ele em flagrante! Que confusão! E o final? Me conta o final! — No final das contas, era um mal-entendido: a Ana é prima dele. — NÃO! Eu esperava um escândalo!
— O escândalo veio depois, e veio de onde ninguém esperava. — De onde? — Do papagaio da dona Cida. — O papagaio mora na portaria e repete tudo o que ouve, o dia inteiro, sem parar. — Não me diga. — Quando a gente desceu para pegar o táxi, ele começou a gritar uma frase só. — Que frase? — “A Marina derrubou! A Marina derrubou!” Vinte vezes, na frente de todo mundo. — A MARINA?! Você?! — Eu.
— Eu tinha chegado cedo, com a bolsa cheia, e a bolsa esbarrou na bandeja do bolo. — E você não falou nada? — Eu ia falar. Aí o gato pulou na mesa, começou a comer o recheio, e a cena ficou perfeita demais. — Marina! — Foi uma mancada, eu admito. Mas o estrago já estava feito e o bicho já estava sujo de chocolate. — E você deixou o gato pagar por você. — Eu não neguei nada, olha bem. Ninguém me perguntou diretamente. — Não falar também é negar, Marina. É negar com estilo.
— E o papagaio? Como ele sabia? — O Seu Almeida tinha me visto pela câmera e tinha comentado o caso na portaria. — E o papagaio guardou a frase. É o pior fofoqueiro do prédio. — Teimoso também: repetiu aquilo a noite inteira, até a dona Cida cobrir a gaiola. — E agora? Você vai contar para a Júlia? — Vou. Quando eu tiver coragem, e antes que a história chegue até ela por outro caminho. — Marina, promete que não vai demorar. — Promete você que não vai espalhar. — Eu? Jamais — disse Rafael, já com o celular na mão. Na terça-feira o prédio inteiro sabia, menos o gato, que continuou lambendo o pote e recebendo carinho de todo mundo.
The words in this story are taught in Lição 28
Every story in Rumo uses only words and grammar from its lesson and the ones before it, so you can read it after Lição 28 (level B1).
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