imperfeito do subjuntivo — se eu aceitasse, se eu pudesse: a life-changing offer · ~807 words · level B1
O e-mail chegou numa terça-feira comum: uma proposta de emprego no Rio de Janeiro. Sofia leu três vezes e depois ligou para Marina. — Se eu recebesse uma proposta dessas, eu aceitaria na hora! — disse Marina. — Calma! Se fosse tão simples, eu diria sim sem pensar. A empresa ia abrir uma filial nova e precisava de alguém para assumir a equipe inteira. Era exatamente o cargo que Sofia queria desde os vinte e cinco anos.
— Qual é o problema? O salário? — Não, o salário é ótimo. Mas se eu aceitasse, eu largaria tudo aqui: amigos, família, minha vida inteira. — E se você recusasse? Você não se arrependeria depois? Sofia ficou em silêncio. Era exatamente esse o medo dela. De um lado, a estabilidade de oito anos na mesma mesa, com a mesma cadeira quebrada. Do outro, a incerteza inteira de uma cidade que ela só conhecia de férias.
Na quarta-feira, Sofia respondeu com três perguntas em vez de um sim. Ela queria negociar o horário, a data de início e quem pagaria a mudança. — Você vai exigir tudo isso? — Marina achou aquilo ousado demais. — Não é exigência, é informação. Foram eles que me procuraram. A negociação durou nove dias e três reuniões cansativas. Sofia avaliou cada linha do contrato com uma calculadora do lado e um café frio na mão.
A empresa cedeu em quase tudo, menos na data de início. No fim, ainda ofereceu um benefício que ela nem pediu: duas passagens por ano para a família. — Dizem que o diretor de lá é exigente — comentou Marina, meio preocupada. — Exigente eu aguento. Chato é chefe que não decide nada. — Se eu fosse você, eu já estaria fazendo as malas. — Se eu fosse você, eu também. O problema é que eu sou eu.
A chefe atual de Sofia reagiu de um jeito estranho: ficou feliz. — Se eu tivesse a sua idade, eu iria correndo — disse ela, fechando a porta da sala. — A senhora nunca pensou em sair? — Eu pensei duas vezes por ano, durante vinte anos. Nunca dei o passo. — E hoje a senhora chama isso de quê? — Hoje eu chamo de prioridade. Naquela época eu chamava de medo, mas ninguém diz isso em voz alta.
A mãe de Sofia foi mais direta, como sempre. — Você tem trinta e três anos e ainda não criou raízes em lugar nenhum. — Talvez a minha raiz não seja um lugar, mãe. — Isso é frase de filme. Na vida real a gente precisa de um endereço fixo. — Se eu ficasse aqui só por sua causa, eu ficaria com raiva da senhora daqui a dez anos. A mãe não respondeu nada, o que na família dela significa “você tem razão”.
Naquela semana Sofia parou de ficar em cima do muro. Ela pôs tudo na balança, numa folha dividida em duas colunas. De um lado: segurança, amigos, aluguel barato e o apego a tudo o que ela já conhecia de cor. Do outro: o desafio, a liberdade e o mesmo fuso horário, o único alívio da lista. As duas colunas ficaram do mesmo tamanho, o que não ajudou absolutamente nada. — Nenhuma lista resolve um dilema — disse Marina. — Lista só adia.
— Sabe o que eu acho? — continuou Marina. — Você fala dessa proposta como se fosse um problema. — Mas é como se a vida te desse uma chance única. — Se eu pudesse, eu iria com você amanhã mesmo. — Quem me dera ter a sua coragem! — suspirou Sofia. — Coragem é o nome que a gente dá para o medo depois que ele passa. — Você deveria escrever isso num quadro e vender na feira.
Naquela noite, Sofia não dormiu. Ela imaginou a vida que teria se ficasse — e a vida que teria se fosse. Se ficasse, tudo continuaria estável, previsível e um pouco morno, como café esquecido. Se fosse, ela seria a novata indecisa que não conhece ninguém no elevador. Ela teria que enfrentar uma cidade de doze milhões de pessoas sozinha, com um mapa no celular. Mas às três da manhã ela percebeu uma coisa muito simples: nenhuma das duas escolhas era definitiva.
De manhã, ela escreveu uma resposta de uma linha: “Aceito. Quando eu começo?” Duas semanas depois, ela abandonou a mesa de oito anos sem nenhuma cerimônia. Levou um crachá velho de lembrança e uma caixa de papelão com três plantas meio secas. O contrato novo dizia “provisório por seis meses”, e Sofia achou aquilo a melhor parte de todas. — Provisório é uma saída — explicou ela no aeroporto. — Definitivo é que dá medo. Virar a página não dói tanto quanto a gente imagina; o que dói mesmo é ler a mesma página durante oito anos.
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