futuro do subjuntivo — quando eu for, se você puder: the ticket is real · ~836 words · level B1
— Comprei! — gritou Sofia no telefone. — Passagem para o Rio, quinze de dezembro! Do outro lado, a amiga carioca, Bia, quase chorou de alegria. — Quando você chegar, eu vou estar no aeroporto! — O voo chega às dez, com escala em Lisboa. — Comprei com três meses de antecedência e, mesmo assim, a taxa da bagagem foi um assalto. — Escolhi o assento do corredor, porque na janela eu nunca durmo. — E o seguro viagem? — perguntou Bia, com a voz de mãe. — Comprei, claro. Minha mãe não me deixaria embarcar sem ele.
— Assim que você desembarcar, me manda mensagem. — Mando! E quando eu passar pela alfândega, o que eu digo? — Relaxa. Se eles perguntarem alguma coisa, responde em português. Você consegue! — E se eu tiver que declarar alguma coisa? — Você não tem. A não ser que traga cinco quilos de queijo na mala. — Tomara! Já reservei uma pousada em Ipanema para a primeira semana. — Quando você estiver aqui, vamos fazer um roteiro juntas. — Enquanto eu estiver no Rio, nada de inglês. Combinado? — Combinado! E sempre que você quiser descansar, a praia está logo ali.
Dezembro chegou depressa, como dezembro sempre chega. No aeroporto, Sofia arrastou a mala grande até o balcão da companhia aérea. A moça conferiu o passaporte, pesou a bagagem e colou uma etiqueta na alça. — A senhora vai despachar as duas malas? — Só essa. A outra vai comigo, porque tem o computador dentro. O primeiro trecho, até Lisboa, estava previsto para as onze da noite. No painel, ao lado do número do voo, brilhava a palavra PONTUAL. Num aeroporto, pontual quer dizer apenas: por enquanto.
Às onze horas, o painel mudou de ideia e escreveu uma hora de atraso. — Um pequeno imprevisto técnico — anunciou a moça do microfone. Ela falava com a calma de quem já anunciou aquilo mil vezes. Sofia fez as contas na cabeça: a conexão em Lisboa era de uma hora e vinte. Se o avião decolasse à meia-noite, ainda daria tempo. Talvez. — Quando eu chegar em Lisboa, eu corro — pensou ela, olhando o portão de embarque. O avião decolou à meia-noite e dez, e a tripulação pediu desculpas duas vezes. Sofia dormiu mal, com o cansaço de quem passou o dia inteiro esperando.
Em Lisboa ela correu de verdade: corredor, escada rolante, corredor de novo. Um funcionário gritava o nome da cidade como quem chama um cachorro perdido: — Rio? Rio? Sofia chegou suando, com a mochila torta, cinco minutos antes que fechassem a porta. — A senhora teve sorte. Foi tudo de última hora hoje — disse o rapaz, devolvendo o cartão de embarque. O segundo voo pareceu curto, porque ela dormiu quase o caminho inteiro. Quando o comandante avisou que iam aterrissar, o Rio apareceu na janela. Morro, mar, prédio, mar, e uma luz que nenhuma foto do mundo consegue explicar. Sofia chorou um pouquinho e depois fingiu que era o ar-condicionado.
No desembarque, a fila da alfândega andava devagar, como toda fila importante. O agente olhou o passaporte, olhou Sofia, olhou o passaporte outra vez e carimbou. — Turismo? — Turismo. — Aproveite. Trinta dias. Na esteira, as malas passavam em fila: preta, preta, preta, rosa, preta. A dela não passou. A rosa passou três vezes, com uma certa ironia. — Extravio — disse o funcionário, sem drama, como quem fala do tempo. — Assim que a mala aparecer, a gente liga. Preenche aqui o formulário, por favor. Sofia respirou fundo e pensou que, pelo menos, o seguro viagem ia servir para alguma coisa.
Do outro lado da porta, Bia segurava um cartaz enorme e ridículo. Estava escrito, em letra de criança: BEM-VINDA, GRINGA QUERIDA. — Cadê a mala? — Em algum lugar do mundo. Talvez ainda em Lisboa. — Que estreia! Mas relaxa: enquanto ela não chegar, você usa minhas roupas. No caminho, Bia mandou o motorista parar numa loja e comprou um chip para o celular da amiga. — Sem internet você não sobrevive aqui. E o adaptador de tomada, você trouxe? — Trouxe dois. Foi a única coisa que eu lembrei de guardar na bagagem de mão. — Então a viagem já valeu a pena — disse Bia, muito séria.
Na pousada, o rapaz da recepção disse que o quarto ficaria disponível em vinte minutos. Sofia sentou na calçada e sentiu o fuso horário chegar todo de uma vez. Cinco da tarde no Rio, nove da noite dentro do corpo dela. — Você está exausta — riu Bia. — Vamos comer alguma coisa e dormir cedo. — Dormir? Quando eu dormir, eu perco o primeiro dia. — Você tem trinta. Sempre que o corpo pedir, você dorme, e ninguém julga. A mala apareceu dois dias depois, com a etiqueta rasgada e areia no fundo. — Areia? — perguntou Sofia. — Eu nem fui à praia ainda. — Foi, sim — disse Bia. — Ontem, às seis da manhã. Você só não lembra.
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