no entanto, portanto, apesar de: the decision — full circle · ~994 words · level B1
Seis meses depois daquela conversa na varanda, Rafael reuniu os amigos no bar de sempre. — Tenho uma novidade — disse ele, segurando um papel. — A proposta do estúdio no Rio foi aceita. Assinei o contrato hoje de manhã. A mesa inteira ficou em silêncio por dois segundos — e depois explodiu. — Passei três anos adiando essa decisão — admitiu ele. — Agora foi, de uma vez por todas. — Por mais que eu goste daqui, o Rio apareceu primeiro, e dessa vez eu disse sim.
— Eu sabia! — gritou Marina. — Mal sabia eu que aquela promessa de domingo ia virar realidade tão rápido! — No entanto, tenho medo — confessou Rafael. — O aluguel, o custo de vida, a adaptação… — Medo é normal — disse Pedro. — Mesmo assim, você tem que ir. — Seja como for, ninguém se arrepende de ir. As pessoas se arrependem de ficar — insistiu Pedro. — Até porque — completou Sofia — você já fala como um carioca! — Chegou a hora de encarar isso e virar a página — disse Rafael, mais para si mesmo do que para a mesa.
— Apesar de tudo, nunca estive tão pronto — admitiu Rafael. — Portanto, está decidido — disse Marina, levantando o copo. — Um brinde! — Você é corajoso, viu, e olha que eu quase nunca elogio duas vezes — disse ela. — E eu vou te visitar, desde que você tenha um sofá para mim. — Vai ter até um quarto. A não ser que você prefira a rede na varanda! Aquele brinde foi o primeiro de muitos, e nenhum deles conseguiu ser triste.
A semana seguinte ficou conhecida entre eles como a semana das caixas de papelão. Rafael comprou vinte, achou que era exagero e, no terceiro dia, comprou mais dez. A fita adesiva acabava sempre no pior momento, sempre no meio de uma caixa aberta. Empacotar uma vida dá mais trabalho do que viver essa vida, ele descobriu na quarta-feira. Ele desmontou a estante sozinho, com uma chave de fenda e uma paciência que não sabia que tinha. Debaixo do colchão apareceu uma poeira antiga, e com ela um caderno de faculdade que ele achava perdido. Entre uma caixa e outra, ele ligou para a imobiliária e avisou que ia encerrar o contrato mais cedo. — Saindo antes do prazo, o senhor paga uma multa de um aluguel — informou a moça, sem nenhuma maldade. Depois vieram a última fatura da internet e uma tarde inteira ao telefone para desligar a luz, a água e o gás.
Desapegar foi, de longe, a parte mais difícil de toda a mudança. Cada objeto tinha uma história, e cada história pedia mais cinco minutos. — Isso aqui é entulho — dizia Pedro, sem dó. — Isso aqui é lembrança — respondia Rafael, guardando tudo. No fim, ele doou metade das roupas e encerrou a discussão consigo mesmo. — Leva o casaco por via das dúvidas — insistiu Marina. — No Rio faz frio em julho, eu juro. Na noite de sexta, o apartamento já estava quase vazio, e cada passo fazia eco. Antes de dormir, ainda fez uma faxina inútil naquele apartamento sem móveis, porque não sabia mais o que fazer com as mãos.
A transportadora chegou às sete da manhã de sábado, pontual como ninguém esperava. O caminhão parecia pequeno demais para uma vida inteira, mas coube tudo, e ainda sobrou espaço. Em duas horas, os quartos foram esvaziados e o apartamento virou um lugar qualquer. O zelador subiu para a última vistoria e assinou o papel sem olhar direito para nada. Prometeram o reembolso da caução em trinta dias, e Rafael decidiu acreditar, porque acreditar custava menos do que discutir. — O senhor volta? — perguntou o zelador. — Talvez. Mas dessa vez a mudança é definitiva, não é provisória. Rafael entregou as chaves, agradeceu e desceu de elevador com a última caixa no colo. Quando a porta se fechou pela última vez, ele sentiu um nó na garganta e botou a culpa na poeira do corredor. Aquilo foi pôr um ponto final em dez anos de vida, e ele levou dois minutos no elevador sem apertar botão nenhum.
A despedida foi no mesmo bar, na mesma mesa, com as mesmas pessoas de sempre. Foi uma despedida calorosa, barulhenta e mal organizada — inesquecível justamente por isso. Sofia levou um bolo com o nome dele escrito errado de propósito, e ninguém corrigiu. — Essa é a saideira — avisou Pedro três vezes, e pediu mais três rodadas. Se despedir de dez pessoas leva mais tempo do que empacotar dez caixas, e dá muito mais trabalho. No fim da noite, ninguém queria ir embora. — Vou sentir falta de vocês — disse Rafael, baixinho. Ele tentou dizer alguma coisa sobre gratidão, não conseguiu terminar a frase, e ninguém falou a palavra adeus a noite inteira. — Ou seja: você vai voltar todo Natal — respondeu Marina, apontando o dedo para ele.
Na segunda-feira, bem cedo, Marina o levou até a rodoviária com o carro cheirando a café. A partida estava marcada para as seis e meia, e o ônibus saiu às sete, por respeito à tradição. Ele quis ir de ônibus, e não de avião: queria ver o país passando pela janela, devagar. O trajeto até o Rio levava seis horas, e ele queria cada uma delas para se acostumar com a ideia. — Está na hora de botar o pé na estrada — disse ele, emocionado, fingindo que era a poeira da plataforma. Do último degrau, ele acenou; Marina acenou de volta até o ônibus sumir na curva. Pelo retrovisor do motorista, Rafael viu a cidade ficar pequena, e o rumo era outro pela primeira vez em dez anos. Não era o desfecho de nada; era o capítulo em que a história finalmente começa. — Não é uma despedida. É um recomeço. E valeu a pena cada passo até aqui.
The words in this story are taught in Lição 30
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