às pressas, à toa, me liga — crase and pronoun placement on a first trip to the coast · ~885 words · level B2
Depois de meses à espera de um documento, Rafael só queria o mar. De segunda a sexta ele vivia preso ao computador; o sábado virou sagrado. — Me liga às sete — disse Marina. — A gente se encontra às oito horas. Ele arrumou a mochila às pressas e dormiu quatro horas. No ônibus das seis, ainda no escuro, ele avistou a primeira placa azul com o nome da cidade. Meia hora depois, antes mesmo de ver a água, sentiu a maresia entrar pela janela. — Isso aqui é cheiro de férias — pensou, e dormiu de novo até a rodoviária.
Chegaram à orla às nove, com sol alto e maré baixa. Andaram pelo calçadão até o quiosque à direita, à beira-mar, sob o coqueiro. Marina alugou espreguiçadeiras e uma sombrinha e pagou tudo à vista. Duas gaivotas brigavam por meio biscoito perto da lixeira, sem nenhuma elegância. Rafael abriu a mochila e ficou face a face com o erro: tinha esquecido o protetor solar. O sol de setembro estava ofuscante, e a areia clara devolvia a luz na cara de quem passava.
— Esqueceu? — Marina riu à beça. — Claro que esqueceu. Foi aí que apareceu o vendedor ambulante, com uma caixa de isopor à mão. O protetor dele custava o triplo, mas era à prova d'água. Rafael pagou sem discutir: o sol da areia não perdoa quem anda à toa. — Quem te falou que setembro é fraco de sol? — perguntou ela. — Ninguém — respondeu ele. — Decidi isso às escondidas, sozinho. O vendedor riu, vendeu mais dois mates e seguiu calçadão acima, gritando o preço.
Passaram a manhã ao ar livre, entre um mergulho e outro. Rafael começou a nadar até a canoa e se cansou no meio. A arrebentação era mais brava do que parecia lá da espreguiçadeira. Ele voltou engolindo água, encharcado e sem orgulho nenhum, e sentou na areia molhada. Depois esticaram as pernas na areia, perto do píer. No fim do píer, um pescador de camisa surrada consertava a tarrafa com uma agulha de plástico.
— Bom dia — disse Rafael. — O senhor sai todo dia? — Saio quando a maré deixa — respondeu seu Nilton, sem levantar os olhos do anzol. Ele mostrou a isca num caixote: sardinha que cheirava a semana passada. A embarcação dele era pequena, de casco branco e azul, atracada no cais desde as quatro da manhã. — Ontem eu quase encalhei na entrada da enseada — contou. — A areia muda de lugar, moço. — O senhor não tem medo? — perguntou Marina, sentando na beirada. — Medo eu tenho. Respeito é outra coisa. O mar é imprevisível, mas não é traiçoeiro.
Seu Nilton contou que, no ano passado, o motor morreu ao largo, longe de tudo. Ficou à deriva duas horas, remando com um remo só, até um amigo atracar do lado e rebocá-lo. — E hoje o senhor pescou o quê? — quis saber Rafael. — Fisguei três robalos e um pé de chinelo — riu ele. — O chinelo eu devolvi ao mar. Às cinco ele ia recolher as redes; às seis, zarpar de novo, se o tempo ajudasse. — A maré não espera ninguém — disse. — Nem eu, nem você, nem o rapaz do quiosque.
Subiram pela trilha do mirante, à esquerda, até o farol. Ficaram até o pôr do sol, vendo a maré subir aos poucos. No crepúsculo, o horizonte ficou de um laranja que nenhuma foto salvou. As gaivotas voltaram para as pedras e o vento ficou morno, quase parado. — Não me disse nada sobre o preço — falou Rafael. — Já se foi o dinheiro — disse Marina. — Ficou o dia. — À primeira vista, foi o pior negócio da minha vida — riu ele. — Me liga sábado.
Voltaram em junho, fora de temporada, quando a cidade inteira parece estar de folga. Metade dos quiosques estava fechada e o calçadão pertencia aos cachorros e aos aposentados. Um nevoeiro baixo cobria a enseada desde a madrugada, daqueles que não molham e não vão embora. O mar tinha a cor de aço da ressaca, e a arrebentação batia no quebra-mar com hora marcada. Sem nenhum veranista na areia, a praia parecia maior e bem mais honesta. Marina estava com os nervos à flor da pele por causa do trabalho e ficou vinte minutos calada. Rafael também não falou nada; comprou dois cafés no único quiosque aberto e entregou um a ela. — Desculpa — disse ela enfim. — A semana foi horrível. — Eu sei — respondeu ele. — Por isso a gente veio.
Perto das cinco o nevoeiro abriu, e o cais ficou cheio de luz por uns dez minutos. Seu Nilton passou de bicicleta, reconheceu os dois e levantou a mão sem parar de pedalar. — Voltaram fora de temporada? — gritou. — Aí é que vocês aprenderam mesmo! — A maré não espera — respondeu Rafael, e o velho riu como quem ouve a própria frase. Na volta, no ônibus, Marina dormiu no ombro dele antes da primeira curva da serra. Ele ficou acordado, vendo o mar sumir atrás do morro, e pensou que o melhor do litoral não é o sol. É o barulho que continua ali, do mesmo jeito, quando ninguém mais está olhando.
The words in this story are taught in Lição 33
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