depender de, confiar em, contar com, obedecer a — the preposition each verb demands, during the first real fight at the office · ~917 words · level B2
O prazo apertado caiu numa quinta-feira de chuva. Rafael precisava de mais dois dias e não dependia só de si. A cliente ligou para o escritório, e a cobrança veio firme. — Não adianta reclamar do prazo — disse a chefe. — Conto com vocês. Rafael assumiu o compromisso sozinho e não avisou o Wagner. Ele quase nunca recorria a ninguém, nem quando o trabalho crescia por cima dele. Pedir ajuda, para ele, parecia fraqueza, e ele zelava pela própria fama de resolver tudo sozinho. Marina já tinha avisado: quem não divide o peso acaba tendo que arcar com ele inteiro.
Wagner tinha mexido na planilha na véspera sem avisar ninguém. Rafael não viu a falha e mandou o arquivo para a cliente. Na sexta veio a bronca, e com ela o retrabalho de uma tarde inteira. — Eu confiava em você — disse Wagner, sem levantar a voz. — E eu acreditava em você — respondeu Rafael. — Só que aqui ninguém avisa ninguém. O estopim não foi a planilha, e sim o silêncio de dois dias que veio depois. A desconfiança entrou no escritório devagar, como um cheiro que ninguém consegue identificar. Nenhum dos dois quis lavar roupa suja na frente da equipe, o que salvou a semana.
O descuido era dos dois, mas cada um insistia em ver só metade. Wagner reclamou da pressa; Rafael reclamou da falta de aviso. Nenhum dos dois inventou uma desculpa esfarrapada, o que já era alguma coisa. A pendência foi resolvida às sete, com dedicação e pouca conversa. O desentendimento ficou em cima da mesa, como um copo que ninguém tira. A queixa de Wagner vinha com uma ressalva que ele não disse em voz alta: a pressa também tinha sido dele. A equipe percebeu o desgaste e passou a pisar em ovos perto da mesa dos dois. O mal-estar foi tratado por debaixo dos panos, que é como escritório trata mal-estar.
No sábado, Marina ouviu o desabafo sem concordar com uma vírgula. — Você está preocupado com o prazo ou com a mágoa? — perguntou ela. — Não desiste do cara — disse ela. — Liga para ele. O ressentimento dele tinha data e hora marcadas, e isso, segundo Marina, é sempre um mau sinal. — Você não quer ter razão — disse ela, sem dó. — Você quer o orgulho ferido de volta no lugar. — Abrir mão de estar certo custa bem menos do que três semanas de distanciamento. Rafael riu da própria teimosia e ligou antes que ela mudasse de assunto. No telefone, ouviu o Wagner falar do Palmeiras por dez minutos. Ninguém pediu desculpa; foram assistir ao segundo tempo na padaria da esquina.
Na segunda, Wagner chegou com dois cafés e reclamou do trânsito da Marginal. A trégua começou assim, com açúcar e nenhuma palavra sobre a sexta-feira. Rafael continuou com o pé atrás, esperando a segunda parte da bronca, que nunca veio. Wagner estava ressabiado do mesmo jeito, e os dois trabalharam a manhã inteira em voz baixa. A convivência ficou estremecida por uns dias, mas ninguém falou em rompimento de parceria. — Se a gente bater de frente toda vez, um dos dois pede demissão até março — disse Wagner. — Ou os dois viram aquele tipo ranzinza que almoça de costas um para o outro — respondeu Rafael. Riram, e o riso resolveu mais do que qualquer reunião teria resolvido.
A briga boba nunca tinha sido sobre tabelas. Wagner esperava uma parceria, não um colega que só obedece a prazos. — Você parece com meu primo quando fica quieto — disse ele, rindo. Rafael entendeu que a franqueza vinha depois do café, nunca antes. Wagner era suscetível a esse tipo de coisa e não tinha a menor vergonha de admitir. — Eu me apego às pessoas com quem trabalho — disse ele. — É defeito, eu sei. Rafael, que só aprendeu tarde na vida a dar razão aos outros, disse que ia tentar. — Vocês não brigam de frente — disse ele. — A gente briga, sim — disse Wagner. — Só faz as pazes de lado, senão o vínculo não aguenta.
Duas semanas depois, a mesma cliente voltou com uma demanda maior e um prazo pior. Dessa vez, Rafael avisou o Wagner antes de responder por qualquer decisão sozinho. Criaram uma regra simples: quem mexer no arquivo escreve uma linha no grupo, sem exceção. A cumplicidade voltou meio torta, do jeito que as coisas voltam entre adultos. Wagner abriu mão do formato preferido do relatório; Rafael engoliu o cronograma sem discutir. — Isso não é picuinha, é acordo — disse Wagner, quando alguém do setor reclamou da regra. Naquela sexta, os dois conversaram de peito aberto pela primeira vez desde a briga.
No fim do mês, a cliente elogiou o trabalho num e-mail de três linhas. A chefe encaminhou o elogio para a diretoria e nunca ficou sabendo da briga. Os dois reataram a rotina do café das dez, que tinha morrido na semana do prazo. — A gente quase se estranhou de vez — disse Rafael. — Quase — disse Wagner. — Mas eu contava com você, e continuo contando. — Fala sem rodeios da próxima vez — pediu Rafael. — Eu prefiro bronca a silêncio. Reataram a amizade sem rancor e sem discurso, o que já é bastante para dois adultos cansados. Rafael entendeu, enfim, que confiar em alguém no Brasil não se assina: se toma. Duas xícaras depois, o assunto já tinha virado futebol de novo.
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